JOÃO CÉSAR DAS NEVES, 28 outubro 2013
Um mistério da situação portuguesa é que inúmeros dirigentes e intelectuais antecipam e incitam à revolta e ao tumulto social enquanto o País permanece sereno e ordeiro. O povo deve saber algo que eles ignoram. Três aspectos saltam à vista.
Primeiro, ao longo de duas décadas, especialistas e organizações avisaram que a a trajectória de Portugal era insustentável, e que iria acabar mal. Banco de Portugal, OCDE, Comissão europeia, FMI e muitos economistas anunciavam a tempestade iminente. Por isso soam ôcas as acusações dirigidas aos governantes actuais, que são a comissão liquidatária dos erros dos antecessores. Espanta que entre os críticos mais activos estejam alguns desses.
Embebedado durante 20 anos pelo dinheiro fácil do Tratado de Maastrich, Portugal chegou ao abismo e precisa de cortar despesas e repor o equilíbrio. Isto todos entendem. A falácia básica de inúmeros comentadores, dos cafés à televisão é: “Quem viveu acima das posses foram ricos e poderosos, por que razão devo ser eu a sofrer?” Felizmente, o povo não esqueceu como vivia antes e como a vida mudou com a dívida, por isso entende a mentira por detrás da queixa. Dinheiro fácil não foi só de ricos. Só endinheirados usavm os inúmeros serviços públicos deficitários, dos transportes e saneamento à saúde e educação? Só eles frequentavam os múltiplos centros comerciais com lojas inacreditáveis? Eram só poderosos a encher os inúmeros restaurantes e pastelarias que substituíam os antigos farnéis? Os pavilhões polidesportivos, auto-estradas, casas da cultura, parques industriais e tantas infra-estruturas novinhas, que brotaram por todo o lado, destinavam-se às elites?
Os portugueses entendem bem o longo delírio colectivo, onde todos obtivemos ganhos excelentes, pagos com dívida externa que agora temos de liquidar. É difícil passar sem esses confortos a que nos habituámos, mas vivemos felizes sem eles durante gerações.
Também houve, e há, erros e crimes, que muitas vezes não são punidos. Mas isso não explica um problema deste tamanho, só atingível com a participação de todo o País. Não se deseja aliviar culpados, mas promover a indispensável solidariedade no sofrimento. Não só porque realmente todos aproveitámos da longa festa, mas também porque a raiva é má conselheira.
A terceira coisa que a população entende bem, e tantos sábios escondem, é que repudiar troika e dívida aumentaria a austeridade. É preciso equilibrar as contas, e os milhões da ajuda permitem aliviar e adiar esses cortes que, mesmo assim, são muito pesados. Mas seriam bem piores sem apoio. Além disso, a única hipótese do País voltar ao normal é reganhar a credibilidade de bom pagador.
Nem as alternativas míticas de crescimento que tantos inventam, nem a revolta que levianamente insistem em antecipar resolveriam a questão. A escolha actual é entre um caminho duro, com aperto e mudança de vida para voltar ao desafogo, ou o estatuto de pária internacional, deixando de ser país respeitável – além de continuar a apertar o cinto, pois o Estado ainda gasta mais do que tem. 7pt
É espantoso que o povo entenda isto suportando serenamente os cortes, quando os sábios não o entendem.
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