Antonio de Jesus Bispo, 2006
Ten.Gen.Pil.Av.(Ref.)
cf. Moisés ...
Introdução
Algumas das interpretações que foram dadas à obra deSamuel Huntington, segundo a nossa apreciação, nem sempre foram resultado deuma análise objectiva, ousando subentender uma acusação ao autor, por trazer àsuperfície um tema inoportuno ou incorrectamente tratado, suscitando por essefacto o fomento do conflito, ainda que indirectamente, e mesmo justificandointervenções militares posteriores.
Outras condenaram liminarmente a tese do autor, advogandoque não existe choque entre civilizações, mas antes se estabelece, pela próprianatureza das coisas, uma troca de processos, de ideias, de bens materiaisquando os limites dessas civilizações se tocam e se enlaçam. Esta é umaposição de fundo, diferente da primeira.
É claro que alguns destes julgamentos, explicita eimplicitamente contidos em opiniões expressas na comunicação social, apropósito de avaliações de situações estratégicas particulares, não resultamde método científico, de análise objectiva da obra. Foram opiniões emitidas emcontextos determinados, que aqui se referem apenas como contraponto, paramanifestar uma posição não concordante, também sem carácter científico. Não nosreferimos obviamente a eventuais críticas objectivas, feitas com caráctercientifico, que tenham sido feitas por outros autores.
Aquilo que em nossa interpretação constituiu o pontocentral da tese do autor referido, foi a chamada de atenção para as diferençasque existem entre comunidades, entre culturas, entre civilizações, relativamenteàs visões do Mundo assumidas a esses níveis, naturalmente enformadas pelosideais religiosos que, segundo a experiência milenar, podem conduzir asituações de conflito. A partir dessa chamada de atenção, sustentada pelaexperiência histórica, o autor sublinha a necessidade de se saber gerir essaslinhas de fractura potencial, que de facto existem, e que ele enumera,ganhando consciência antecipada dessa situação. Na nossa leitura, é aí queestá o enfoque da obra.
São as diferenças de qualquer natureza que levam a que osrespectivos actores assumam posições que podem constituir obstáculo àafirmação dos outros, nesmo sem terem consciência disso, e criar antagonismosque se podem traduzir, em última análise, em confrontações no plano físico,gerando violência em potencial, que poderá ou não traduzir-se em actosfísicos, conforme a ocorrência ou não, dos mecanismos disparadores num dadoquadro circunstancial e da natureza da cultura no seio da qual se manifestam.
Por exemplo, não foi o rapto de três soldados israelitasa causa da última guerra no Líbano, como foi exaustivamente invocado – essefacto constituiu o disparador de uma situação que se estava a tornar demasiadotensa, pela percepção de ameaça criada, resultante do antagonismo crescente.
É preciso portanto ter consciência das diferenças entre agrupamentos sociais ou unidades políticas, e adoptar uma linha de conduta quefacilite a sua gestão, segundo uma perspectiva envolvente, em termos de convivência, reduzindo as possibilidades de confrontação. Linha de conduta que permita a convivência entre actores com diferentes atitudes perante a vida, designadamente com diferentes códigos religiosos. E isto consegue-se, até um certo ponto, dado que a prevenção não tem eficácia garantida, se cada parte assumir que existem diferenças e respeitar ou reconhecer os outros que seassumem como diferentes, mantendo inalterado o seu código de valores.
Ignorar as diferenças significa caminhar sem ter em conta os outros, e nesta senda, entrar inconscientemente numa situação de confrontação. Parece que foi isto que Huntington quiz dizer, apoiando-se na sua interpretação da experiência histórica da Humanidade.
Uma releitura recente de duas obras sobre o fundamentalismo islâmico, e de uma outra sobre os árabes, suscitou-nos a ideia de verter nestas páginas aquilo que se extraiu dessas leituras, tendo como pano de fundo a mensagem que extraimos do Choque de Civilizações.
O propósito não é o de aprofundar o tema, mas apenas de expôr uma interpretação genérica, com base nessas leituras, e não mais do que isso – a matéria é demasiado complexa para ser tratada, em toda a sua extensão,desta forma tão simplista.
Em todo o caso julgamos ser interessante efectuar uma abordagem a estas questões, que permitam ao menos um enquadramento do problema. Por razão da complexidade, e pela distância a que nos encontramos, não será fácil a compreensão exaustiva deste tema sem fazer um investimento forte em aquisição de conhecimento – o texto que se segue pode ser considerado também como contributo de informação para uma caminhada mais longa.
Todas as idéias aqui expostas vêm doutros sectores, segundo a interpretação que fazemos dos textos e usando as nossas palavras, sem prejuiízo da assunção das nossas responsabilidades, como será evidente.
Neste momento o fundamentalismo de que mais se fala, na perspectiva ocidental, com ou sem razão, é o fundamentalismo islâmico: os esforços para purificar os preceitos islâmicos, diferenciando-os dos vividos em ambientes impuros (os que não são verdadeiramente islâmicos), e traduzir essa militância ideológica em actos concretos dirigidos contra os agentes do Mal. No dizer de alguém, a esmagadora maioria dos muçulmanos são pessoas pacíficas, mas a verdade é que, actualmente, a quase totalidade do terrorismo se reclama do fundamentalismo islâmico, ou em resposta a essa posição.
O fundamentalismno pretende fazer renascer a essência do Islão como divulgado há treze séculos e que, segundo os seus proponentes, forças externas querem corromper.
É esta marcação de diferenças que cria as imagens satânicas e que faz mover os defensores destas ideias contra o exterior, numa acção de defesa ou de preservação.
Noutros períodos da História falou-se doutros tipos de fundamentalismo, noutros contextos e àcerca de outras religiões, com igual determinação na defesa dessas crenças.
O quadro de referência básico
No caso particular do Mundo Islâmico, poderemos dizer que as divergências começaram no seu seio, nasceram e consolidaram-se com base na interpretação do texto sagrado e das práticas definidas pelo Profeta, desde a Revelação vertida no Corão até aos procedimentos administrativos correntes ao longo da sua vida religiosa e política, e que vieram a ser registados na Suna.
Desde os tempos de Meca e Medina, constituiram-se posições irredutíveis no seio do Islão, quanto às formas e quanto ao poder, sem pôr em causa o essencial da fé, posições que causaram conflitualidade permanente no seio da comunidade islâmica.
Todas as disputas internas de hoje têm a ver, directa ou indirectamente, com aquelas interpretações e com a memória histórica do início da constituição da Uma, com as separações que então se criaram, com os grupos que se formaram em torno dessas interpretações.
A questão ideológica esteve sempre associada com o processo de legitimação do poder dentro da comunidade islâmica, a Uma.
Na origem da religião muçulmana há uma diferença, relativamente às outras religiões monoteístas, no que concerne ao nosso tema. É que, para além de mensageiro de Alá, Maomé foi acolhido pelas tribos como árbitro dos seus conflitos, que eram permanentes, como chefe espiritual, político, militar e administrativo..
É evidente que outras religiões também têm preceitos sobre à vida em comum, o comportamento individual; mas houve desde o início uma divisão entreo religioso e o secular, embora se tenha esbatido em certos momentos históricos. O que não aconteceu na fundação do Islão; e é aos fundamentos que os radicais recorrem para justificar as acções actuais.
Em certa medida, isto também se passou com Moisés, que conduziu o seu povo a Israel, mas de forma diferente, e sem continuidade, com graus de influência da religião na política expressos de forma diferente. O radicalismo judaico vem depois da questão política.
No cristianisno há uma separação clara entre o espiritual e o temporal, embora esses campos se tenham por vezes misturado.
Maomé foi assumindo, gradualmente, porventura contra sua vontade, as funções de governador civil e militar de Medina, que lhe davam uma autoridade real, em todos os aspectos da vida, e não só no âmbito espiritual. O islamismo foi-se implantando entre as tribos árabes porque se tornou um poder a que os chefes se submetiam, por razões mais pragmáticas do que dogmáticas.
As revelações divinas continuaram para além das recebidas na gruta de Meca, mas agora eram, cada vez mais, preceitos legais e morais. Para além do Corão, editado depois da morte de Maomé, existe também a Suna, o conjunto compilado das práticas que o Profeta fez adoptar durante o exercício dos seus poderes (o ditos e feitos do Profeta). E também existem as práticas adoptadas pelos primeiros Califas, que se julgavam igualmente investidos como seguidores do Profeta. Aqui não existe diferença entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens.
As primeiras orientações provindas do reduto de Medina trataram obviamente da segurança interna e externa da comunidade islâmica, a Uma. @@@
Era necessário, em primeiro lugar, garantir a paz, asegurança das pessoas e a propriedade individual, face às ameaças existentes,e essa seria uma responsabilidade de toda a comunidade, no quadro depreceitos básicos que não poderiam deixar de ter sido influenciados pelosancestrais costumes tribais.
A seguir importava estabelecer o direito da família, asobrigações e os direitos de cada membro, a definição dos institutos do casamento,da sucessão, a pensão de alimentos e tudo o que então estava associado àfamília e que importava regular.
Outras prescrições de natureza ética e legal foram aindaintroduzidas, como sendo por exemplo a proibição de consumir álcool ou qualquersubstância intoxicante, carne de porco, de praticar jogos de azar, entreoutras; a condenação da fraude, da calúnia, do perjúrio, da hipocrisia, dacorrupção, da arrogância.
E como seria óbvio, também aí foram incluidas as penas oupunições para cada tipo de prevaricação, que igualmente não poderiam deixar deter em conta o que então se praticava ao nível tribal.
Fizemos referência a estas orientações, apenas a títulode exemplo, para sublinhar a forma como os preceitos religiosos se misturavamcom as normas que condicionavam a vidados cidadãos, ainda que, deva dizer-se, dos 6616 versículos do Corão sòmenteoitenta se referem explicitamente a questões legais ( é a Suna que contém aspráticas, naturalmente influenciadas pelo espírito do Corão, mas ambas sãoconsideradas de uma forma integral).
As divergências internas, para além da forma de usar opoder, ou melhor, da separação entre o político e o religioso, e dos critérios para o adquirir ( hassucessórias) resultam da necessidade de evolução dos princípios anestrais,tal como estabelecidos nos documentos originais, segundo interpretaçãorígida, ou se esses princípios ou normas não deverão evoluir com a própriaevolução do Homem e da Sociedade. Serão apropriadas ao Mundo de hoje asformas de punição que prevaleciam no século VII?
Para fazer com que a mensagem de Alá fosse aceite, Maomée o pequeno núcleo dos seus seguidores, teria obviamente que a enquadrar nocontexto da época, que era dominado pelo animismo e pela ausência de regulaçãoacima do clã ou da tribo, apesar de ter vindo a constituir um factor integrantede grande importância. As tribos foram aderindo à nova religião, foram-se submetendo( Islão significa submissão) à vontade do seu líder, que não era apenasreligioso. A Uma foi-se alargando, mas havia a consciência de que esta coesãointerna só se poderia manter se houvesse unidade na luta contra o infiel, o nãocrente, que era assumido como ameaça – é nesse contexto que se desencadeia umconjunto de operações militares, dirigidas por Maomé, a começar pelo ataque a Meca, contra a triboque aí residia e donde ele era originário, e a continuar pelos seussucessores fora da Arábia contra os Bizantinos e os Cristãos ocidentais,essencialmente, numa primeira fase.
Nestas circunstâncias, isto é, o de haver um só líder queconcentrava na sua pessoa a questão espiritual e a questão temporal, impunha-se desde logo precisara definição dos critérios da sucessão, tendo em conta os limites da vidahumana.
No seu leito de morte, Maomé criou uma ambiguidade:aceitou que seu sogro presidisse às orações, em sua substituição, mas tambémchamou a si o genro, casado com a suafilha Fátima, para que lhe lavasse o corpo, o que constituia então uma grandehonra.
Esta situação criou a primeira situação de conflitointerno para a sucessão, que foi resolvido a favor de Abu Bakr, seu sogro,tendo este vivido apenas mais dois anos. Antes da sua morte, nomeou como seusucessor Omar, com a preterição de novo de Ali, o genro de Maomé, que se irá dedicarao estudo, à meditação à compilação dos textos sagrados, nos tempos maispróximos.
Omar é o grande conquistador, que toma a Síria bizantinae vai até ao Egipto e ao Irão. Dez anos depois de ter tomado posse, e de tergrangeado as glórias das conquistas, é assassinado por um escravo iraniano aoserviço de uma família árabe de Medina, representando esse assassínio não umacto de um tresloucado, mas a expressão de um descontentamento pela forma comoOmar administrava a justiça no seu Império.
Para a sucessão de Omar é constituido um colégio tribalque elege Ali, com a condição de que este adopte todas as práticas seguidaspelos seus antecessores. Porque tinha tecido críticas à forma como a Umaestava a ser dirigida, Ali não aceitou as condições e não foi nomeado, tendo noentanto criado com este facto uma imagem de fidelidade aos princípios do Islãoe de homem íntegro, e passado a ser admirado por uma grande parte dapopulação. O Califado foi então entregue a Utma, e é esta situação que cria aprimeira grande divergência entre muçulmanos; Ali manteve a contestação àspráticas seguidas pelo novo líder, sempre com base nos princípios sagrados deque ele era o melhor conhecedor e o seguidor mais inflexível.
Utma não soube gerir as várias sensibilidades internas,não foi reconhecido como estando acima dos interesses clânicos, e acabou porser assassinado por elementos das suas próprias forças árabes que vieram doEgipto, passando pelo Iraque onde se juntaram outras forças revoltosas, e se dirigiram à casa do Califa em Medina.
São estas forças revoltosas que aclamam Ali como Califa(o sucessor do mensageiro de Alá), o Primeiro entre os Muçulmanos.
Este facto nãosignificou no entanto um acto de pacificação interna.
As revoltas continuam, não só entre os opositores de Ali,mas também dentro do grupo dos apoiantes iniciais de Ali, resultante do factode Ali querer ver ratificada a sua aclamação por todas as forças ( tribais)existentes. É este processo de ratificação que traz à superfície duas correntes: uma que entende que qualquer muçulmano poderá vir a ser designado Califa,outra que defende a santidade da linhagem de Maomé através da sua filha Fátimae do seu genro Ali. Estes últimos passaram a designar-se por xiitas ( partidáriosde Ali).
Dois anos depois destes factos, e de muitas outrasrevoltas internas, Ali acaba por ser assassinado. Mas é também neste processoque se lança uma acusação de traição praticada pelos opositores de Ali, aoagirem de má fé na discussão da eleição do Califa – estava assim criado umressentimento entre grupos, e constituido o grupo dos puros em oposição aogrupo dos usurpadores do poder.
Na sequência desta confusão, é designado um novo Califaem Jerusalém, do clã oposto ao de Ali, e um outro Califa em Kafu, sendo esteHassan, filho de Ali, que veio também a ser morto por envenamento pouco tempo depois.
Com a morte do Califa de Jerusalém volta-se a equacionara sucessão, tendo Hussein, um outro filho de Ali, reivindicado o Califado.
O poder pendia de novo para os Umaídas, e foi Yasid,oposto a Hussein, que viria a ocupar a liderança.
Hussein não se conformou com a situação, e apesar dogrande desequilíbrio de forças a seu desfavor, resolveu enfrentar Yasid apenascom a força dos princípios. O confronto, que teve lugar em Kafu, traduziu-senum banho de sangue, tendo Hussein sido morto, assim como a quase totaliade dosseus seguidores. Tornou-se assim no primeiro mártir, e este acontecimento éainda hoje recriado todos os anos, com demonstrações de auto-flagelação chocantespara os tempos actuais, e que constituem notícia nos órgãos de comunicaçãointernacionais.Têm no entanto um sentido, a crença de que vale a pena seguir apureza dos princípios seminais da religião, apesar de todos os sacrifíciosindividuais. Também lembra o fosso que existe entre os grupos divergentes.
A divergência reside no facto de uns considerarem que oCalifa deverá ser descendente de Maomé, pelo ramo de Ali e de Fatima, e quepor esse facto incorpora toda a essência da mensagem, sendo considerado comoinfalível; e de outros, os povos da Suna, entenderem que o Califa é tão falívelcomo outro ser humano, pode ser qualquer crente que demonstre sabedoria equalidades de liderança, e que o Corão e a Suna deverão ser entendidos à luzda realidade actual, sem que a sua essência seja prejudicada e sem que osvalores básicos nele contidos sejam alterados. A procura de um equilíbrioentre o ideal e o real, entre a perfeição do Islão e os factos reais da vida,tem constituido uma questão central na história islâmica, desde as suaorigens aos tempos actuais.
O martírio de Hussein foi marcante na medida em que fezreviver, entre a Uma, a necessidade de se viver de acordo com os princípiosfundamentais da religião muçulmana ainda que isso implique sacrifícios,incluindo o sacrifício da vida, e por outro lado reforçou a importância dospartidários xiitas. Contudo, na realidade, quem continuava dominando era o clãdos Umaidas, que continuavam a construir uma sociedade fortemente estratificada,o que fez desencadear uma série de revoltas a meados do seculo VIII, que instaurouAbbas, tio de Maomé, no Califado. Pelo facto de ser ascendente e nãodescendente de Maomé, a legitimidade de Abbas viria ser contestada pelospróprios xiitas, especialmente quando aquele enveredou por um estilo de governoditatorial. Os abassidas continuaram no entanto no poder, mas o Império sofreualgum declíneo, o que proporcionou a vitória dos fatimidas ( descendentes deAli) no Egipto que passou a ser um centro de formação xiita na segunda metadedo seculo X. A reconquista de Jerusalém pela primeira Cruzada ( 1095) criou umacrise no mundo islâmico, o que teve como resultado imediato a expansão dosfatimidas para a Tunísia. Síria, Iemen, Omã, ficando apenas o Irão e o Iraquesob controlo abassida.
Esta situação viria a ser alterada com as vitórias dogeneral Saladino sobre os fatimidas, em 1171, o que fez com que o sunismo setornasse na força dominante no Islão.
É este o quadro de referência, na sua maior simplicidade,para a justificação de atitudes ao longo da História, tanto no que diz respeito à conflitualidade interna nomundo muçulmano e árabe, como nas relações com o Ocidente maioritariamentecristão.
No plano interno a divisão inicial manifestou-se pela reivindicaçãodo prosseguimento de um ideal de vida em consonância com o Corão e a Suna,por um lado, e na adopção de uma atitude pragmática na interpretação dos textossagrados face à evolução da ideia de sociedade. Os primeiros intitulavam-se depuros ou piedosos, e ao mesmo tempo acusavam os segundos de corruptos editadores.
Esta divisão interna foi inicialmente atenuada pela ideiade Império, mas as forças da coesão foram insuficientes para evitar atransferência desta divisão para o exterior do pequeno círculo inicialoriginário do processo religioso.
Na fase final deste período, ainda se verifica o apoiodos xiitas à revolução abassida, contra os Califas umaidas que se tinhamdesviado do rumo muçulmano, mas não levou muito tempo para que aqueles setenham apercebido que também os abassidas sunitas se desviavam do Corão e daSuna, o que fez renascer a revolta também reforçada pelo martírio de Hussein.Os militantes xiitas tornaram-se guerreiros de extrema coragem e violência, na defesa dos seus ideiais.Foi assim que o Califado de Bagdad caíu em 932 e que surgiu o Califado xiita (fatimida) no Cairo em 968.
A dominação xiita alargou-se e manteve-se até à tomada doCairo pelo general sunita Saladino, como já se referiu.
Esta derrota suscitou no entanto um revivalismo islâmico,em especial com a perda de Jerusalém para os Cristãos em 1099.
Pelo que se acaba de expôr se poderá concluir que nagénese da religião muçulmana, e nos quatro séculos que se lhe seguiram, aexpansão e o Império, só muito parcialmente conseguiram criar uma comunidadepacífica, unida em torno de princípios religiosos.
O critério genealógico para o cargo de Califanaturalmente que fez criar rivalidade entre clãs, e parece ser de aceitarque para além das divergências relativas à religião, era ainda a questãoclânica o que dividia os árabes, dado que os defensores das duas correntesprincipais ( e muitas mais se desenvolveram posteriormente, como iremos ver)se agrupavam naturalmente por famílias, eventualmente por tribos, entre asquais existia um conflito permanente desde a memória dos tempos.
O islamismo expandiu-se territorialmente, pelas razões jáexpendidas: criação e reforço da coesão interna pela assunção de uma ameaçaexterna, desenvolvimento de massa crítica, no reconhecimento de que areligião não sobreviveria se não tivesse um carácter universal e umaimplantação em conformidade com isso.
No princípio da expansão, foi mais importante conquistarterritório do que expandir a fé, na medida em se praticou discriminaçãorelativamente aos povos conquistados, e se proibiu qualquer relação entrecombatentes e populações – foi esta discriminação um dos pontos dedivergência entre sunitas e xiitas, estes reclamando a universalidade.
Os povos ocupados, obrigados ao pagamento de imposto aoconquistador, quando, por razões de alteração de poder no campo islâmico,verificaram da vantagem material em aderir à nova religião, foram-seconvertendo, em especial naquelas regiões onde o animismo reinava, e assim seia constituindo o Império, em toda a sua dimensão.
Houve no entanto outra via de implantação do islamismopara além da expansão pela força. Foi o caso da junção da componentereligiosa à expansão comercial para o Oriente, por via pacífica, onde já existiamoutras religiões, em particular o hinduismo e o budismo.
Em todo este processo foi adoptada uma estratégia para aadesão de novos crentes, que não poderia colidir frontalmente com as crenças,as culturas, as normas já existentes, nem desvirtuar os princípios básicos darevelação divina contidos no Corão.
Daqui resultou a necessidade de se constituirem escolas ede se desenvolver um esforço adicional em matéria de codificação e de criaçãode doutrina. Acontece que estas escolas defenderam propostas diferentes.Referimos apenas duas de entre elas, por nos parecer que reflectem as posiçõesextremadas.
A escola do Cairo considerava a ciência da jurisprudênciareligiosa baseada em quatro pilares: o Corão, a Suna, o consenso da comunidadee o raciocínio analógico. Este último pilar permitiria à comunidade incorporarnovas situações no sistema da Sharia, ou seja, da Lei Divina, sem prejudicar aessência do Corão e da Suna.
Uma outra escola, criada por volta de 810 em Bagdade porAhmad Hanbal, era contra a superestruturalegal que outros pretendiam construir em cima do Corão e da Suna, e defendiaque qualquer decisão legal deveria ser sempre directamente referida ao Corão eà Suna, na medida em que constituiam a lei, em si mesma, e não a origem da lei.
Cada uma destas escolas exerceu influência em zonas deexpansão diferentes, sendo que, por regra, as mais rígidas foram maisadoptadas na zona de expansão inicial do Islão ( no heartland islâmico), e asmais liberais adaptaram-se melhor nos territórios mais longínquos onde o Islãonão esteve associado a conquista.
No contacto com novas civilizações, em especial fora doquadro da conquista, o Islão tinha que adoptar uma estratégia de aproximaçãoprogressiva, ferindo no mínimo as crenças existentes, que eram baseadas naadoração de ídolos e no culto da personalidade. Para além da palavra, dasideias que eram construidas nas escolas, era necessário o exemplo, o convite àreflexão, à meditação, a prioridade aos problemas do espírito. E terá sidoassim que a componente mística passou a desempenhar um papel importante nadivulgação da fé religiosa – começaram a surgir as figuras ascetas e aspráticas dolorosas de exercícioreligioso, para se estar mais próximo de Alá, baseadas no exemplo de Maomé, etambém de Hussein. Esta corrente foi designada como sufismo.
Esta mística, que alguns chegaram a considerar como umaforma em si mesmo para se chegar a Alá,como se de novas revelações se tratasse, foi no entanto contida dentro dospreceitos do Corão e da Suna, isto é, “ integrando o sistema legal com ainfraestrutura espiritual originária na consciência mística de Maomé, onde ocrente sentisse a presença do deus não só durante as orações e os jejuns, mastambém durante todas as acções da sua vida”.
O sufismo desenvolveu-se fora do quadro da rivalidadesunita – xiita, na medida em que a sua filosofia superava as divergênciasexistente noutros planos, desempenhou um papel importante nos momentos devazio ideológico criado pelas invasões de outros povos, como por exemplo a dosmongóis a meados do século XIII.
A primeira irmandade sufista criou-se em Bagdade, noinicio do século XI, e espalhou-se rapidamente para a África Ocidental eSudoeste Asiático, tendo sido considerada como a mais ortodoxa de sempre.
A penetração islâmica no continente indiano faz-se, comose disse, através das irmandades, que também tinham capacidade para utilizaçãoda força, em determinadas situações extremas, que se iam instalando ao mesmotempo que se dava a expansão comercial. Dá-se aqui uma dialética interessante,porque por um lado não seria conveniente ser radical, negar por completo ascrenças já adoptadas, e por outro lado existia o receio da absorção doislamismo pelo hinduismo. Neste debate interno venceu a ortodoxia, que quiz implantara Sharia de forma exaustiva, isto é, aferindo todas as manifestações de vidapor esse instrumento legal e ideológico; no plano externo veio a perder e a produzircomo resultado, o estado islâmico doPaquistão, cerca de três séculos e meio depois.
No coração do Islão, dá-se uma mudança de liderança com aconstituição do Império Otomano, em especial depois da tomada de Constantinoplaem 1453 e da constituição da capital do Califado em Istambul. Contudo, do pontode vista da religião vai-se verificar uma certa estagnação, prevalecendo o pensamentolivre ou independente, as interpretações dos códigos segundo as circunstâncias,em especial quando se começa a verificar o declíneo imperial.
O Império compreendia, para além do seu centro europeu easiático, a Argelia, a Líbia, o Egipto, a Grecia, a Hungria, a Pérsia, aArábia, a Síria, a Transilvânia, a Moldávia, toda a região tártara que ia daPolónia ao Mar Cáspio incluindo a Crimeia.
O primeiro sinal da sua fraqueza foi não ter conseguido entrarem Viena em 1683, donde resultou o aperto estratégico do Império Austro-Hungaroe da Rússia. Do ponto de vista interno, o fracasso da reforma militar contra osJanissários, é um outro sinal de fraqueza, que na altura levou à deposição deSelim III.
No final do século XVIII e princípios do século XIX aEuropa afronta este Império, começando com a invasão napoleónica ao Cairo econtinuando com a disputa franco-britânica sobre uma grande parte do territóriodo Norte de África. A Europa cristã passou a constituir uma ameaça, naperspectiva do Islão.
No seio deste Império, com um pendor centralizadorreligioso menos forte, e com uma diversidade de culturas, intensificaram-se asdiferenças entre escolas e irmandades, e criaram-se turbulências que levaram aconfrontos violentos dramáticos. À estagnação haveria que responder commilitância ortodoxa e fazer reviver os princípios sagrados do Islão, noreconhecimento de que os muçulmanos se teriam desviado da sua rota inicial.
Assim nasceu, entre outras, a corrente fundamentalistacriada por Wahhab, já no século XVIII, cujos seguidores se designaram por wahhabise que vieram a justuficar mais tarde a criação da Arábia Saudita.
A “ameaça europeia”, que compreendia várias tenazes, umapelo Norte de África e Médio Oriente, outra pela Europa de Leste e ÁsiaCentral, outra pelo continente indiano (Companhia das Índias), levou a que selançassem apelos para a união de todo omundo islâmico sob a liderança otomana contra o invasor cristão, mas tambémproduziu um efeito de modernização social que ia produzindo alguma erosão nascorrentes fundamentalistas.
Mas esta ameaça fez também suscitar um movimento demodernização e uma tentativa mimética de seguir o Ocidente, que algunsreconheciam mais avançado ( a prova deste avanço residia justamente na suainflitração por território islâmico).
Os códigoscomerciais e criminais publicados em 1859 para todo o Império Otomano forambaseados nos códigos napoleónicos, e o âmbito de aplicação da Sharia ficoureduzido aos assuntos pessoais. O Estado secularizou-se com a criação deministérios de educação, com a profissionalização dos oficiais e dos quadros,alguns dos institutos feudais foram sendo abolidos, houve alguma abertura àsmodas ocidentais.
Mas ao mesmo tempo criou-se um outro movimentorevivalista, motivado pela busca das razões do atraso ou da estagnação, e essasrazões não poderiam ter sido outras senão as que resultaram dos desvios aosprincípios básicos do Islão, donde a necessidade de um regresso às origens, à rigidezdoutrinal das escolas mais ortodoxas.
Talvez seja interessante lembrar alguns dos factos,ideias e personalidades marcantes desta convulsão dentro do Império.
Ao ver perder a sua influência, para os Hapsburgs e paraa Rússia, Selim III, na viragem para o século XIX, procurou a modernização dos exércitos,com a criação de milícias e a adopção dadoutrina militar europeia. Esta acção provocou a revolta dos Janissários,tropa profissional que tinha sustentado o Império, apoiados pelos ulamas ( osacadémicos das escolas, os juizes para aplicação da Sharia, os funcionários,enfim, os que sustentavam a ideologia). O Mufti ( o supremo julgador legal ereligioso) emitiu uma “fatua” onde constata o desvio aos princípios e condenatodos aqueles que se deixaram levar pelas interpretações livres dos textossagrados, determinando o regresso ao seguimento rigoroso das orientaçõesescolásticas, assim como à correspondente punição dos desviados. Daquiresultou a demissão de Selim II e a interrupção brusca da reforma militar.
Contudo, os Janissários também começaram a perder poder,no terreno, pela sua incapacidade em conter os avanços das forças que lutavamcontra o Império, incluindo os não muçulmanos que existiam no seu interior, eacabaram por ser extintos em 1826, sem que os ulamas agora levantassem o seuprotesto, ou os apoiassem, como havia sucedido no passado.
Assim começa a construção do Estado Moderno, a partir doImpério, atravès do processo que ficou designado por “Tanzimat” (reorganização), que pretendia extinguir o regime feudal e não discriminar osnão muçulmanos, com a criação da cidadania otomana. Como consequência, osulamas foram perdendo poder dentro da sociedade. Contudo, este processo, nãoinvalidou que as potências europeias parassem os seus avanços, em particular aRússia na região do Cáucaso, ou fosse contida a revolta dos Balcãs contraIstambul.
O Tratado de Santo Estevão, assinado em Março e corrigidoem Julho de 1878 pelo Tratado de Berlim, correspondeu a uma humilhação para opoder imperial, tanto pela cedência territorial ( entrega de Chipre àInglaterra e da Tunísia à França, libertação do território eslavo) como pelainterferência europeia nos assuntos internos do Império, no sentido doprosseguimento da reforma.
Esta humilhação fez reavivar as forças internas nosentido da interrupção das reformas e do regresso aos valores islâmicostradicionais, sem prejuizo da continuidade da importação da tecnologiaocidental. Esta tentativa de retorno foi efectuada aravès da mobilização dasmassas, usando as irmandades sufistas como canais de comunicação com aspopulações, que passavam agora a estar envolvidas neste combate pelapurificação e pela morte do “Tanzimat”.
A personalidade que mais apoio deu a esta estratégia foiAfghani, “uma personalidade de vários talentos: um académico, um filósofo, umprofessor, um jornalista e um político” Foi ele que mais contribuiu para aagitação das massas nesta segunda metade do século XIX, tendo sido um andarilhopelas várias partidas do Islão, não só dentro do Império Otomano, mas também pelaIndia, pela Ásia Central, pelo Afeganistão donde era originário, mas tambémconhecido no Mundo Ocidental, com paragens frequentes em Paris e Londres e naRússia. Foi uma “ figura islâmica que desempenhou um papel activo na vidapolítica e religiosa dos povos em todas as regiões islâmicas importantes:Turquia Otomana, Egipto, Irão, India e Ásia Central. Esta experiência deu-lheuma verdadeira perspectiva pan-islâmica, e fez-lhe acreditar que toda a Umaislâmica estava ameaçada pelas potências europeias. Foi o primeiro a usar osconceitos de Islão e de Ocidente, como noções correlativas do fenómenohistórico, e obviamente antagonistas. Foi, ao mesmo tempo, um reformista doIslão e um anti-imperialista veemente; desejava conduzir as massas muçulmanase os seus dirigentes numa resistência activa contra o imperialismo europeu. Asua influência foi seminal na criação do nacionalismo pan-islâmico e noreforço do movimento reformista “salafi” ( a pureza do Islão tal como praticadapelas primeiras gerações, por Maomé e pelos seus seguidores)”.
Os seguidores de Afghani continuaram o seu trabalho,segundo linhas aparentemente contraditórias : o apelo aos princípiosfundadores do Islão, o incitamento das massas populares contra o avançoeuropeu, mas também o reconhecimento da não incompatibilidade entre o Islão eos pontos básicos do pensameneto europeu, relativamente aos princípios dademocracia ( tal como entendida pelo Ocidente) e do ajustamento das leis àevolução social.
Para defender a sua influência na Ásia Central e naEiropa de Leste, o Império Otomano aliou-se à Alemanha durante a PrimeiraGuerra, tendo saido derrotado, O nacionalismo turco expulsou as forças gregasocupantes, e atravès de Mustafá Kemal foi abolido o sultanato e o califado,tendo este sido mantido num período muito transitório apenas como figurasimbólica da unidade islâmica.
Kemal pediu à Grande Assembleia Nacional que fizesserespeitar e elevasse a fé islâmica, retirando-a da posição de instrumentopolítico a que se tinha remetido durante os séculos precedentes. Este novoposicionamento da religião, que quebrou uma longa tradição, criando o Estadosecular, criou uma crise espiritual no mundo islâmico fora da Turquia.
Em 1920, antes do momento da secularização da Turquia, naGrande Siria constituiu-se o Congresso Nacional que escolheu o Príncipe Faisalpara Rei da Síria, ao mesmo tempo que se levantavam os fundamentos do primeiroEstado Islâmico. O ideólogo desta construção foi Rashid Rida, presidente doCongresso e discípulo de Afghani, que também esteve envolvido nos acontecimentosque marcaram a experiência otomana.
De acordo com os princípios então estabelecidos, o EstadoIslâmico deveria gerir os seus assuntos no quadro de uma Constituição inspiradano Corão e nas experiências dos Califas fundadores. Para a promoção dobem-estar deveriam ser criadas leis que resultassem de raciocínio criativona interpretação das fontes. O Chefe do Estado Islâmico, chamado Califa ou Imamsupremo, deveria ser um “mujtahid” ( personalidade qaulificada e com capacidadereconhecida para efectuar a “ijtihad”, o processo de decisão legal baseado nainterpretação das fontes, designadamente o Corão e a Suna), apoiado pelosrepresentantes da comunidade incluindo os ulamas – a sua principal responsabilidadeseria a de proteger o carácter islâmico do Estado, e a lei positiva deveriaestar conforme com a Sharia, ou seja, com os princípios fundamentais do Islão.Deveria existir uma autoridade temporal para aplicar o sistema de punições paraos prevaricadores.
Como Chefe de Estado o Califa/Iman Supremo será o líderde todos os muçulmanos e assim deverá ser reconhecido no pluralismo dadoutrina islâmica. Esta posição era considerada como reformista, por oposiçãoà tradição escolástica mais radical, na medida em que aceitava a evolução dospreceitos legais de acordo com a dinâmica social, ainda que enquadrados nostextos sagrados, agora com a possibilidade da interpretação criativa.
Esta reforma aparentemente conciliatória com os preceitostradicionais, suscitou reacções nos meios muçulmanos mais conservadores. Paraestas forças, não interessava tanto colocar o ênfase na limpeza do Islão dossufismas medievais e no legalismo escolástico, mas acima de tudo haveria quepurificar o Islão das novas heresias, ou seja das ideias seculares ocidentaisque decorriam do chamado modernismo. Interessava acima de tudo colocar o Islãofora da influência da decadência ocidental.