2011-09-10

Egipto, Afeganistão, Síria


O caso do Egipto                                                                                              

Na chefia do movimento de revivalismo islâmico estão osIrmãos Mu­çul­ma­nos, um clube de juventude fundado em Ismaila no Egipto em1928, para ”combater a apostasia e o niilismo, para defesa dos ataques contra atradição e a ortodoxia, lutar contra as tendências não-islâmicas, seculares elibertárias”.
O revivalismo islâmico dos Irmãos Muçulmanos, necessáriopara reagir ao cerco ideológico ocidental, assentava na consideração do Islãocomo ideolo­gia total, e na construção de um sistema poderoso para regulartodas as acti­vi­dades da vida política, religiosa, económica, social ecultural dos crentes. Era o herdeiro e catalizador dos mais activos elementosdo pensamento tra­di­ci­o­na­lista e reformista sunita.
Cada centro deste clube ( em 1946 existiam cerca de 5000)consistia, em re­gra, numa mesquita, numa es­co­la e numa exploração agrícolaou industrial – a escola dava não só forma­ção religiosa, mas também treinofísico, instrução militar e formação técnica.
A “jiade” tinha por finalidade libertar o Egipto e toda aterra muçulmana do con­trolo estrangeiro. Nessa terra muçulmana deveria serinstituido um go­ver­no islâmico, à semelhança do que tinha proposto Afghani,mas agora dis­pon­do de um instrumento para levar a cabo essa missão.
Os Irmão Muçulmanos estiveram na guerra contra Israel em1948, sentiram as humilhações não só desta derrota, mas também da dependência  exte­rior, e revoltaram-se contra o regime,acusando-o pela situação, e contra  tu­doo que significava controlo ex­ter­no, através de acções terroristas e subversi­vas.Em resposta, o regime decretou a lei marcial e extinguiu os Irmãos Muçul­manosem Dezembro de 1948 – três meses depois o Primeiro Ministro era assas­sinadopor um Irmão, e um ano depois o líder dos Irmãos Muçulmanos era abatido pelosserviços secretos egípcios.
Os Irmãos Muçulmanos estavam na linha dos movimentosanteriores inicia­dos por Afghani e continuados por Rashid Rida na Síria :defendiam a pure­za do Islão, mas aceitavam a interpretação dos textos sagradosde acordo com os contextos resultantes da evolução da sociedade, dentro decertos limites. O que o diferenciava dos outros eram os meios utilizados, namedida em que se tornou num partido político de massas, que reclamava de formaintransigente que o regime reconhecesse a Sharia como a origem suprema de todasas leis reguladoras de todos os aspectos da vida.
Quando a lei marcial foi levantada  em 1950, foi igualmente permitida a existêncialegal dos Irmãos Muçulmanos, mas como corpo religioso. Volta­ram a exercer umpapel político activo logo no ano seguinte, na acção contra os Ingleses, tendodecretado uma “jihad” contra os ocupantes, assim como estiveram no centro dosdistúrbios internos no princípio de 1952 e que foi o prenúncio do golpe militarlevado a cabo a meado do ano.
Estiveram representados no Conselho da Revolução, foramconvidados para o Governo. Contudo, a situação de poder alterou-sesubstancialmente quan­do Nasser iniciou o plano de reformas que, no entenderdos Irmão Muçulma­nos, iam ferir o normativo da Sharia e correspondiam aimportação de figuri­nos estrangeiros – a partir daí começaram as perse­gui­çõese execuções por parte do regime e as acções subversivas por parte dos IrmãosMuçulmanos. Os valores do patriotismo entraram em choque com os valores doIslão, na perspectiva destes – a comunidade era de cren­tes, não de nacionais eaqueles que defendiam a territorialidade entre muçulmanos estavam a defender ospropósitos do Ocidente e do sionismo.
A derrota do Egipto na guerra dos seis dias em 1967, umaguerra entre Islamismo e Judaismo, foi considerada como um desvio no caminho deAlá, o que originou uma intensificação na educação religiosa das massas, ideiaque veio a ser também adoptada pelo próprio regime, com o propósito de captarsimpatias  e de elevar o seu prestígiointerno. Durante o período que se seguiu até à guerra de 1973, onde o regimeegípcio declarou vitória peran­te os seu súbtidos, os Irmão Muçulmanososcilaram entre a oposição frontal e a cooperação, o que deu como resultado osurgimento de grupos mais radicais, em choque frontal com o regime que, na suavisão estava a trair os princípios do Islão.
Aquele que foi considerado como o cérebro do assassíniodo Presidente Sa­dat, Faraj, tinha descrito em livro ( Al Jihad, o Pilar es­que­cido,e A Obriga­ção Ausente) as linhas gerais que determinavam os gru­pos radicais,que em sín­tese eram as seguintes:
- o verdadeiro muçulmano é obrigado pela sua fé a fazerrenascer a Uma, e aqueles que se desviarem da Sharia serão apóstatas;
- é portanto pecado para um verdadeiro muçulmano cooperarcom um diri­gen­te traidor;
- aqueles que quizerem sair da Ordem da Ignorância serãoobrigados a lançar uma jihade contra o Estado infiel, e a única forma de jiadeé o conflito arma­do – todas as outras formas significam cobardia;
- o verdadeiro muçulmano deverá primeiro confrontar oinfiel interno e a se­guir o infiel externo;
- a liderança da Uma deverá ser entregue ao mais forteentre os crentes que te­mem Alá; esse líder deverá ser escolhido pela colectividadee como tal deverá ser obedecido.
A “jihade” era assim a obrigação de um muçulmano econstitui um movi­men­to perpétuo para transformar o mundo não muçulmano numaUma islâ­mi­ca.
Ao longo do tempo, desde a fundação dos IrmãosMuçulmanos, tem havido no Egipto uma relação complexa com o regime; se emdeterminadas oca­siões tem havido tolerância, ou mesmo aproximação ( Sadat foimembro do Conselho de Revolução, em representação dos Irmãos Muçulmanos), nou­trastem havido perseguição por parte do regime e acções subversivas da organizaçãoreligiosa. Organização que sempre reivindicou uma participação política activa,e sempre tem condenado, muitas vezes de forma violenta, a políticapró-ocidental do regime, embora tenha manifestado por alguns períodos brevesuma posição moderada ( nestas circunstâncias, quando a sua direcção mostramoderação produz-se no seu interior a dissidência para o radicalismo, queprocura controlar nem sempre com sucesso).
Os Irmãos Muçulmanos têm delegações em vários paísesárabes, de forma aberta ou encoberta, e mantêm uma forte ligação entre eles. Oseu objectivo político permanente é a aplicação da Sharia, a constituição doEstado Islâmi­co, apontando muitas vezes como referência o estado islâmicoiraniano. 
No Egipto constituiram-se como uma força políticaimportante, na oposição, têm influência económica e os seus elementos estãointroduzidos nas insti­tui­ções do Estado. O seu discurso é cativante, não sópara os crentes muçul­manos ( no Egipto existe uma força minoritária cristãcopta com algum signi­fi­ca­do) mas também para aqueles que mais se sentemafectados pela situação económica,  Apesar de contida pelo regime, as bandeiras doEstado Islâmico e da luta contra a corrupção ocidental, continuam a serempunhadas por este grupo que, para sobreviver politicamente, se aliou comoutros gru­pos constituindo a principal oposição ao regime, e procura aderentese militantes em todas as áreas de actividade, alargando a sua base de apoio.Para manter o equilíbrio, o regime promove acções de abertura politica e dedemonstração de aderêrncia e respeito à religião, sempre que a relação deforças o aconselha.  Apesar de todas aslimitações, os Irmãos Muçulmanos, aliados aos liberais e ao Partido Socialista,com o slogan de campanha “ Islão, essa será a solução”,  obtiveram 17% do voto popular e garantiram 36lugares no Parlamento( a aliança conseguiu 60 lugares) nas eleições de 1987.
Os Irmãos Muçulmanos constituiram-se na Síria logo erm1930, tendo como elementos fundadores estudantes sírios que tinham efectuado asua formação no Egipto, no âmbito daquela organização. Da mesma forma,propunham para a Síria o estabelecimento de uma política piedosa que deveriaser conduzida segundo as leis e os ensinamentos do Islão, o que significavaincluir no seu projecto o religioso e o político, obviamente integrados. O seucrescimento está patente nos resultados da votação popular para o Parlamen­to,em 1961, onde conseguiram metade dos lugares dum velho partido de en­tão, oBloco Nacional.
O caso do Afeganistão

O caso do Afeganistão, relativamente ao fundamentalismoislâmico, assume contornos diferentes, na medida em que existiram condicio­nalismospróprios alguns deles impostos por razões de geoestratégia.
O Afeganistão é um pais que resultou da necessidade de umamortecimento entre a Companhia Inglesa das Indias, a Rússia e o Irão. Até aosfinais do sé­cu­lo XIX viveu encerrado sobre si mesmo, segundo padrõesmedievais, com regime feudal caracterizado pela existência de varios condadosdominados por várias tribos.
O Afeganistão fez parte do Califado Abassida. Com oenfraquecimento deste califado toda esta região passou a ser governada pormonarquias quase inde­pen­dentes. Os impérios mongol e safavide lutaram peladisputa do território onde se incluia o país actual..
Entretanto, a meados do século XVIII o Irão expulsou as tribos afegãs do seu território,tendo estas ocupado um território no Sul do Afeganistão e desencadeado guerracontra aqueles impérios, já decadentes, acabando por vencer as tribosdominantes, criando uma entidade política mais vasta com capital em Cabul, quelutou contra a Companhia Inglesa das Índias, por duas vezes. Estas guerras, emconjunto com uma guerra civil que durou oito anos, fez criar uma identidadeafegã, nos finais do século XIX.
Contudo, o regime tribal continuava, o que deu origem auma campanha de sub­mis­são das tribos que desafiavam as tribos afegãs,conduzida sob a ban­dei­ra sunita, que durou alguns anos. Assim se construiu oAfeganistão, com uma população muçulmana, na sua quase totalidade ( havia aquitambém cristãos que foram totalmente subjugados), sendo cerca de 80% sunita e arestante xiita, mas onde não existia um enquadramento religioso profundo, tendoem conta as carências em “mullahs” ( professores e assistentes religio­sos) ede seminários.
Foi em nome de Alá, que se fundou um estado centralizado,sendo responsa­bi­li­dade inalienável do seu líder, inspirado pela orientaçãodivina, a defesa da causa do Islão e a libertação do solo afegão de forçasestrangeiras e in­fiéis.
Mas o líder deste novo Estado Abdur Rahman (1844-1901) eraum di­ta­dor violento que pretendia conciliar a doutrina islâmica sunita com aseculariza­ção ou com a modernização, separando a religião da política. A suacapacida­de de liderança guerreira conseguiu con­tra­riar todas as acções deinsurreição conduzidas pelos ulamas. Esta luta continuou com os líderes que lhesucederam, verificando-se altos e baixos da influência religiosa no regi­me.
Em 1923 foi aprovada uma Constituição inspirada naConstituição do Irão de 1907.
Em 1929, através de um golpe de estado, o regime sofreuuma grande inflexão, tendo sido abolidas todas as determinações anteriores queforam consideradas como não conformes com a Sharia. Em 1931 foi aprovada umanova Constituição que estabelecia um Estado Islâmico seguindo a escola Hanafita,constituindo-se portanto em Estado fundamentalista dirigido se­gun­do a rigidezda Sharia e dos preceitos corânicos.
Não foi pacífica esta transição, e alguns sectores dasociedade reclamavam a modernização, em particular no campo do conhecimento eda tecnologia, mas também no plano dos costumes.
Estas lutas internas enfraqueciam o poder do líder quedecidiu apoiar uma revolta militar em 1953, que uma vez vencedora começou porestabelecer um programa de modernização, tendo em vista recuperar o atraso emque o Afe­ga­nistão se situava, relativamente a outros países.
Para este esforço de modernização foi solicitado o apoioda União Soviética com quem tinham sido estabelecidos vários tratados nopassado (1921, 1925). Este apoio foi ainda mais reforçado com a independênciado Paquis­tão em 1947, dado que existia um contencioso de fronteira ainda dotempo da Companhia das Índias, que levou o Afeganistão a entrar em conflito como seu novo vizinho. Dado que o Paquistão procurou entrar na esfera america­na,ao estabelecer relações com os Estados Unidos, de quem recebeu apoio mili­tar eeconómico, ao Afeganistão ficou negado esse apoio, reforçando por­tan­­to a suadependência da União Soviética.
Apesar da resistência provinda do lado religioso, que iadando lugar a acções de repressão, as reformas continuaram. Em 1961 oAfeganistão en­trou em conflito declarado com o Paquistão, que lhe fechou asfronteiras produzindo o impacto económico significativo, que conduziu àdemissão do governo em 1963. Contudo, a Instituição Militar mantinha-se forte eleal ao Rei que, com base nessa força decidiu continuar as reformas,promulgando em 1964 uma Constituição designada de liberal, que ficou conhecidapor Nova Democra­cia. Esta nova Constituição continuava no entanto a dar privi­lé­gioao Islão, que era a religião oficial do Estado, que impunha que o Rei fosse ummuçul­mano Hanafita, que todas as leis fossem de acordo com os princípiosbásicos da religião do Islão, e que estabelecia que a Sharia consti­tuia a Leiremissi­va, entre outros aspectos.
Em todo o caso, esta abertura deu lugar a que surgissemnovas unversidades laicas onde confluiam estudantes de todas as proveniênciasdo país e de to­dos os sectores sociais, onde se estudava Marx e onde seorganizavam co­mis­sões para a defesa da luta de classes. Para além dissocriou-se uma certa permissividade de costumes, e a afluência de muitosestrangeiros à semel­han­ça do que acontecia nalgumas capitais do Ocidente coma vaga “hippy”. Num outro plano, verifica-se uma aceitação nalguns sectoresintelectuais das doutrinas marxistas, e mesmo algumas tentativas de asconciliar com a dou­tri­na islâmica. O partido democrático do povo doAfeganistão ( marxista) fundou-se em 1965. Este ambiente escandalizava o sec­torreligioso que co­me­­çou a tomar medi­das, acusando o regime desta situa­ção.As condições económicas do país entretanto degradaram-se e surgiram tumultos.
Em Julho de 1973 quando o Rei estava ausente, noestrangeiro, ocorreu um golpe de estado. Os novos poderes aboliram de imediatoa monarquia e sugeriram um  regresso àpureza do Islão, ainda que tenham tomado medi­das, em particular na área dareforma agrária, que não eram propriamente fundamentalistas, e ao mesmo tempotenham recebido o apoio de correntes marxistas. A reacção do Jovens Muçul­ma­nos, acusando os novos poderes de des­vio ecorrupção, foi objecto de dura repressão por parte do regime, obri­gan­do a queaqueles se tenham refugiado no Paquistão, que lhes deu apoio.
O regime saido do golpe de 1973 adoptou uma via flexível,procurando a modernidade dentro do islamismo. Em 1976, com a ajuda do Xá doIrão re­sol­veu as questões pendentes com o Paquistão e aproximou-se doOcidente e fez uma inflexão à direita na sua política interna. Na Constituiçãode 1977 o poder secular foi reforçado e o Islão passou a desempenhar um papelmais passivo. No plano interno intensificaram-se as perseguições tanto contraos fundamentalistas islâmicos como contra os marxistas.
À repressão seguiu-se a reacção dos grupos que entretantose vinham organi­zan­do, e em 27 de Abril de 1978 dá-se um golpe de esquerdapromovido pe­los militares que entretanto tinham sido infiltrados pelospartidos marxis­tas locais e tinham sido influenciados pela União Soviética,onde uma gran­de maioria era formada.
Os novos poderes, em respeito pela história e culturapopulares, mantiveram a sua submissão ao Islão, mas ao mesmo tempo lançaramprojectos de dina­mi­za­ção cultural, de promoção do bem-estar económico, decombate contra a iliteracia, de promoção dos direitos da mulher, de ruptura como sistema quasi feudal ainda existente, desonerando os camponeses das pesadasobri­ga­ções para com os donos da terra. Na prática, esta política conduziu aum afastamento do Islão, o que levantou grande descontentamento nos ulamas enos senhores feudais.
A aproximação à União Soviética era evidente, traduzidanos apoios à insti­tui­ção militar, na adopção de políticas, na assinatura noTratado de Amizade e Cooperação em finais de 1978.
O isolamento dos religiosos e o ataque aos fundiários,assim como o desvio progressivo das práticas islâmicas pelo regime, fez nasceruma revolta, agora dinamizada pelos grupos fundamentalistas participantes ouobservadores da Revolução Iraniana. As acções de guerrilha começaram com grandeviolên­cia, pelo ataque selectivo a membros do governo, dos partidos, dosconsel­hei­ros soviéticos, dos professores marxistas. O regime, incapaz deconter pe­la força esta situação, procurou conciliar posições sem qualquersucesso, e decidiu solicitar apoio militar à União Soviética que foiprontamente conce­di­do.
Assim teve início este conflito de baixa intensidade emtermos de guerra fria – os mujahedine do povo receberam auxílio do Paquistão,do Irão, Arábia Saudita e Egipto. Do lado da resistência existiam muitasdivergências, porque as influências eram diferentes entre os vários gruposenvolvidos, que tinham um objectivo comum que era o de expulsar as forçassoviéticas e reestabelecer a independência do país. As motivações dos apoiantestambém eram obviamente diferentes.
Com a abertura do regime soviético, a partir de 1985,Korbatchev colocou como objectivo prioritário a retirada das forças doAfeganistão, o que só começou a ser possível com a mudança de líder político,mudança forjada, aliàs, pelo próprio regime soviético. A retirada não foi noentanto imediata por razões políticas relacionadas com a balança de forças, emtermos globais.
A assinatura do Tratado de Paz e Amizade com a UniãoSoviética polari­zou a sociedade afegã, em especial pela reacção que suscitoupor parte do sector religioso que considerou este acto como anti-islâmico.
Com medo dos efeitos que esta campanha verbal pudesseter, o regime res­pon­deu com acções de intimidação e repressão, contra oslíderes religiosos que foram forçados a emigrar para o vizinho Paquistão,juntando-se a outros grupos resistentes já baseados em Peshwar.
O Conselho Revolucionário da União Islâmica doAfeganistão passou a con­tro­lar regiões de difícil acesso, que se subtraíramao governo central, tanto junto à fronteira com o Paquistão co­mo a sul dafronteira com o Irão, em Herat. Neste último caso, as forças governamentaisreocuparam a zona depois de uma batalha sangrenta que causou mais de 5000baixas – Cabul acusou Teerão de ter fomentado a revolta, o que parece ter sidoo caso, através de um grupo de revolucioná­rios afegãos que se encontravam noIrão envolvidos com a Revolução Iraniana.
Face à situação de subversão generalizada, constituiu-seum governo de uni­da­de nacional chefiado por Amin, da mesma linha política (ou talvez mais dura) mas de uma tribo diferente da de Karmal.
Este governo, a conselho da União Soviética, procurou aconciliação com os grupos dissidentes, mas a sua prioridade foi para a expulsãoda máquina do Estado de grande parte dos Parchamis que lá tinham sido colocadospor Karmal.
A pacificação não resultou, a violência escalou de novo,tanto do lado do re­gi­me como do lado da dissidência o que levou a um novopedido de ajuda à União Soviética.
O Presidente do governo foi morto num ataque ao paláciopresidencial, tendo Karmal, entretanto refugiado na União Sovi­é­ti­ca, reassumidoo poder.
Em meados de 1979 existiam no Paquistão seis partidosislamitas afegãos independentes, refugiados e apoiados por este país, a partirdonde diri­giam as operações no interior.
Três destes partidos eram fundamen­ta­lis­tas que seguiamas ideias dos Irmãos Muçulmanos, e os restantes eram partidos religiosostradicionais, modera­dos, que pretendiam a reposição da situação anterior a1973 com o Rei Zahir Shah como monar­ca constitucional.
De entre os fundamentalistas existiam divergências quantoà estratégia a se­guir, sendo um deles mais radical e com objectivos maisimediatos, outro mais flexível e propondo uma melhor preparação da população, oestabele­ci­mento de uma rede bem estruturada em paralelo com o desenrolar deacções violentas contra o poder estabelecido, a adopção de um regime políticopluripartidário. Ambos concordavam com a guerra santa contra o regime que  consideravam ilegítimo, apenas divergiam nasformas de levar a cabo essa guerra e na configuração do poder pós vitória.
Dentro do Afeganistão, para além das áreas controladaspelos partidos base­a­dos no Paquistão, já referidos, e que envolviam grandespartes do território, existiam ainda territórios nas montanhas centrais queeram controlados por organizações xiitas com sedes baseadas não só no Irão, mastambém no próprio país.
Todos estes partidos apenas tinham em comum o carácterislâmico e anti-marxista, e todos usavam a religião para fundamentar as suasacções e fazer ape­lo à mobilização geral.
Apesar dos esforços levados a cabo pela Organi­za­ção daConferência Islâmi­ca para a fusão ou estreita coordenação entre estespartidos, a verdade é que essa unidade na acção sofreu de muitas defi­ci­ên­cias.
Ainda se constituiu a Aliança Islâmica do Afeganistão, decerta forma força­da pelos países fornecedores do apoio, embora tenha tido umaexistência sempre precária. Em 1983, com receio de ficarem de fora dasnegociações promovidas pela ONU, sete partidos decidiram criar a Aliança Islâmicados Afegãos Mujaedine.
Esta divisão permanente entre a dissidêrncia favoreceu umpouco a acção do regime, que se decidiu por atacar em prioridade os partidosfundamentalistas radicais e lançar acções de propaganda e de aliciamento dosrestantes, embo­ra sem sucesso significativo.
As baixas em 1984 foram de 17000 entre as forçasgovernamentais, 30000 en­tre os dissidentes, e entre 15000 e 30000 nas forçassoviéticas.
Os efectivos soviéticos nesta altura eram de cerca de115000,
O apoio financeiro anual prestado às forças rebeldes erade cerca do dobro do orçamento afegão.
Em 1986 o primeiro ministro Karmal foi substituido porNajibulah, por influência soviética, para facilitar as negociações da retiradadas forças que entretanto tinham sido iniciadas. Isto não significou no entantoum abranda­mento das operações militares, agora já mais enquadradas no processoda negociação.
Os sete partidos da resistência recusaram uma ofertainicial do regime para um cessar fogo, e decidiram, nesta circunstância, constituirum governo interino de unidade para substituir o governo de Najibulah.
Em 1989 as forças soviéticas retiram do Afeganistão, emborao regime continuasse por algum tempo a receber apoio de Moscovo. Najibullahcontinou no poder,  tendo apenas procedidoa uma remodelação governa­men­tal, depois de uma oferta recusada que efectuouaos Mujaedine para um governo de unidade, de promessa de eleições, de aceitaçãode partidos políti­cos, do estabelecimento de nova Constituição, a verdade éque se criou um vazio de poder.
Este vazio de poder, resultado do enfraquecimento dogoverno central, que foi enfrentando a resistência enquanto teve armassoviéticas, não só fez ruir o aparelho do Estado, como também deu lugar a lutasentre as várias facções dos mujaedines, reforçando o cenário medieval desenhores da guerra.
É deste caos que surgem os talibans, das tribospashtunes, estudantes das ma­dras­sas paquistanesas, apoiados pelo Paquistão,pela Arábia Saudita e pe­los Estados Unidos ( até 1997), que tomam Cabul em1994.
Os talibans, como movimento revolucionário que era,generoso e utópico, acolheu no seu seio pes­­soas e grupos mafiosos, ligados àdroga e ao contra­bando, extremistas ára­bes, idealistas ocidentais, o que lhesdeu um carácter de extrema violência na exe­cução das suas acções em prol dumextremismo religioso. O seu objecti­vo principal era o de reislamisar oscostumes, a justiça, as pessoas, voltando à pureza do Islão tal como existia notempo de Maomé.
Os talibans não tinham um projecto prioritário deorganização do Estado, apenas se preocupavam com a aplicação intransigente dalei divina. A Sharia, na sua interpretação rígida, era na prática a sua únicaorientação. E, com a sua importante capacidade guerreira, assim foram ocupandoterritório e impondo regras rígidas de vida, na sua expressão mais simples, semnada que estivesse minimamente associado à modernidade. A única força que foisobrando destes confrontos foi a Aliança do Norte, com quem os americanos seviriam a aliar na sequência da guerra ao terror, na busca de Ben Laden, quepassava pela derrota dos talibans.


O caso da Síria

Quando foram banidos pelo regime no Egipto, muitos dosIrmão Muçul­manos refugiaram-se na Síria. Entretanto, em 1958 o Egipto e aSíria junta­ram-se na República Árabe Unida, e a extinção de partidos políticosno Egi­pto estendeu-se também à Síria, não deixando espaço para a existêncialegal dos Irmãos Muçulmanos, passando esta organização a funcionar na clandes­ti­ni­dade.
No final de 1961 a República Árabe Unida foi extinta e osIrmãos Muçulma­nos emergiram de novo, com o resultado eleitoral já mencionado.
Em Março de 1963 o Parlamento Sírio foi dissolvido nasequência do golpe militar levado a cabo pelo Partido Socialista Árabe Baath.Este partido colo­ca­va o Islão, segundo uma perspectiva civilizacional, a umnível diferente do nível político, e associado ao arabismo, isto é, assumia queas identidades  is­lâ­mica e a árabe sedeveriam fundir.
O Partido Baath tornou-se muito popular entre as classesmenos privilegia­das e foi apoiado pelas mi­no­rias religiosas, entre as quaisa dos Alauistas (mu­çul­­manos que adoram Ali como sendo a incarnação de Deus),a que per­ten­cia o futuro Presidente Hafez Al-Assad.
Porque os acontecimentos que decorreram na Síria a partirde 1963, consti­tuem paradigma para o estudo da relação entre o religioso e opolítico, no Mé­dio Ori­en­te, impõe-se uma descrição pontual de alguns deles,ainda que muito sintética.
Em virtude do agravamento das condições económicas e dasmudanças internas de poder, por efeito da revolução, gerou-se um elevado nívelde descontentamento que os Irmãos Muçulmanos aproveitaram no sentido de oorientar contra o regime resultante do golpe.
Na sequência de uma manifestação não autori­za­da, asforças da ordem efectuaram alguns disparos contra uma mesquita onde seinstalaram os ma­ni­fes­tan­tes, tendo destruído um dos seus minare­tes, o quefez acirrar os âni­mos e dar origem a uma série de tumultos provocados pelosmanifestantes com a consequente repressão. Este acto isolado de utilização deum templo religioso chocou os crentes, que ficaram mais mobilizados, e afectouo regi­me, que sendo laico, não deixava de ser sensível à manifestaçãoreligiosa da população.
Um artigo publicado no jornal do Exército, nestes termos: “Deus, a religião, o feuda­lis­mo, o capitalismo e o colonialismo, e todos osvalores que prevale­ce­ram na antiga sociedade não são mais do que múmias nomuseu da Histó­ria, e só a crença absoluta nas capacidades do Homem deverá serconsidera­da como o verdadeiro valor”. Esta frase era altamente ofensiva para ogrupo religioso, e a resposta foi naturalmente violenta. O governo prendeu epuniu os revoltosos, mas também aplicou a pena de prisão perpétua para o autordo artigo; ao mesmo tempo, desenvolveu um plano de construção de mesquitas portodo o país, sem comparação com qualquer outro no passado.
A luta entre o grupo religioso e o regime manteve-se equilibradaapenas porque as Forças Armadas, cujos oficiais eram predominantementeAlauitas, se mantinham fieis ao regime. O nível de repressão era elevado. Poroutro lado, a corrente mais radical dos Irmãos Muçulmanos tornou-se um grupoarmado, tendo os seus elementos recebido forma­ção militar nos campos de treinoda Fatah na Jordânia nos finais da década de sessenta  
Com a chegada ao poder de Hafez al-Assad em 1970,iniciou-se uma política que procurou minar as bases de apoio dos IrmãosMuçulmanos pela via da economia, criando facilidades para os apoiantes doregime e dificuldades para aqueles que apoiavam o grupo religioso e militar. Daparte dos Irmãos Muçulmanos procurou-se atacar os Alauitas, acusando-os de nãoserem mu­çul­ma­nos, de serem idólatras e infiéis. Assad apressou-se a criaruma imagem de muçulmano praticante, aparecendo publicamente nas mesquitas,cumprindo com o jejum e com todas as práticas muçulmanas, inclusivamen­teefectuando a peregrinação a Meca. Alterou a fórmula de juramento dosfuncionários públicos de: “ Eu juro pela minha honra e pela minha fé” para :“Eu juro por Alá, o Maior”.
Apesar de tudo isso, os Irmãos Muçulmanos continuavam aacreditar que o partido Baath os estava a desviar do Islão, e isso confirmou-ona Constitui­ção promulgada em 1973, que descrevia a Síria como um “Estadopopular democrático e socialista”. Imediatamente se criou uma situação de insta­bilidade,com tumultos e revoltas, obrigando o Presidente a instruir o Parla­mento paraalterar a Constituição no sentido de considerar a cúpula do Esta­do comomuçulmana, ao mesmo tempo que exercia repressão contra os líde­res dasmanifestações. Isto não fez apaziguar os revoltosos que continuaram
a provocar tumultos, e a serem duramente perseguidos, aomesmo tempo que eram oferecidas honrarias aos “ulamas” na generalidade,tentando assim captar as simpatias dos grupos religiosos muçulmanos.
A guerra de 1973 contra Israel foi considerada peloregime como uma jihade contra os inimigos do Islão, designando as forças síriascomo soldados de Alá, o que contrastou com a justificação secular da entrada emguerra em 1967, também contra Israel.
Em 1976 Assad interveio militarmente no Líbano em apoiodos cristãos maronitas contra a aliança dos palestinianos com os muçulmanoslibaneses, o que chocou uma larga franja da sociedade síria, e de cujodescontentamen­to os Irmãos Muçulmanos se aproveitaram para lançar nova onda deprotestos e de tumultos, uma jihade contra o regime, sem grande significadoprático, dada a desproporção de forças existente, embora se tenha prolongado notempo e tenha provocado uma atrição no regime, com especial realce para a mortede 80 cadetes Alauitas num ataque contra a Escola de Artilharia de Damasco, etambém para o ataque de conselheiros soviéticos destacados para apoio dasforças armadas sírias.
As acções da resistência intensificaram-se por volta de1979, e as autorida­des recearam que os Irmão Muçulmanos pudessem ter a forçasuficiente para implantar na Síria um Estado Islâmico, sob a influência e apoiodo Irão. Esse receio deu origem às acções de repressão mais duras por parte doregime; seguiu-se a tentativa falhada de assassínio de Assad, e a reacção aindamais brutal do regime dirigida especificamente contra os Irmãos Muçulmanos, comprisões e execuções em larga escala, e consequente enfraquecimento.
Apesar da repressão a que foram sujeitos, Os IrmãosMuçulmanos voltaram à cena política, em conjunto com outros pequenos grupos religiosose políticos, formando a Frente Islâmica da Síria, como alternativa ao PartidoBaath, e apresentando um programa que tinha em vista a aplicação da Sharia aomesmo tempo que aceitava no seu seio algum plurarismo e alguma flexi­bi­li­dade.Um dos redactores deste programa esclarecia:
“.. o sistema islâmico não está apenas restrito a umaréplica da primeira sociedade islâmica, mas é tal que cada forma social sejagovernada pela visão total islâmica da vida. No sistema islâmico existe espaçopara modelos que sejam compatíveis com o crescimento natural de uma sociedade ecom as novas necessidades da idade contemporânea, desde que a ideia totalislâmica domine esses modelos no seu perímetro expansivo externo”
Os inimigos da Frente Islâmica eram o regime secular deinfluência soviética e os Alauitas que eram considerados como subversivos dasregras tradicio­nais do Islão.
O regime considerava os Irmãos Muçulmanos como autoresdas maiores “car­ni­fi­ci­nas contra crianças, mulheres e idosos, em nome doIslão... esten­dem a sua mão ao estrangeiro e aos seus agentes, assim como aosregimes fantoches dirigidos pelos Estados Unidos, nossos vizinhos, parareceberem fundos e armas que vão matar os seus concidadãos... Eles sãoapóstatas. Nós somos aqueles que defendem o Islão, a religião e a pátria...(discurso de Hafez al Assad em 8 de Março de 1982)”.  Os apoios de que falava Assad eram o Iraque deSaddam Hussein e a Jordânia do Rei Hussein.
Os resultados da guerra do Líbano, onde as pretensões deIsrael e dos Esta­dos Unidos foram frustradas e a aliança com o Irão na guerracontra o Iraque provocaram efeitos na organização dos Irmãos Muçulmanos, namedida em que criaram desorientação e criação de facções. Esta desoreintaçãofoi ainda acrescida pela declaração de Kadafi, Presidente da Líbia, de associareste país com a Síria, que foi prontamente aceite, na medida em que veio refor­çaro estatuto de Assad, como líder muçulmano.
Até ao momento não existe indicação de novo ressurgimentodos Irmãos Muçulmanos na Síria, ao contrário do que aconteceu no passadodurante as suas crises existenciais, por força do contexto perturbado pelasalianças seculares de oportunidade e pela forma de regulação imposta pelopróprio regime. Contudo, as motivações e as crenças tradicionais continuamlatentes.