2011-09-10

Considerações finais

Depois desta descrição sumária sobre o que nos pareceu serem os pontos fun­­da­­men­tais para a análise de uma situação de choque potencial entre civi­li­zações, que resulta de uma pesquisa bibliográfica limitada, importa extrair alguns elementos conclusivos, com base nesta informação e no modelo que já expendemos em artigos anteriores.
A questão fundamental será a de se assumir, ou não, se existe de facto um cho­­que potencial entre o Islão e o Ocidente, entidades assim expressas de forma vaga, propositadamente.
O choque potencial entre as civilizações cristã, ouocidental, e muçulmana não se manifes­ta actualmente sob a forma de umconfronto entre blocos, em primeiro lugar porque os blocos não estãosolidamente constituidos.
Em cada uma das par­tes existem múltiplas visões do Mundoe múltiplas for­mas de encarar a relação entre povos.
Do lado islâmico não existe uma unidade estratégica naacção política no sentido do afrontamento ao bloco ocidental, e este tem as­su­mi­dono seu seio, posições muito diferentes relativamente aos estados Islâmicos, noplano táctico.
O que nos parece existir são afloramentos, ou conflitos,nem sempre ma­ni­fes­tados pelas sedes institucionais tradicionais, como sejamgrupos funda­men­ta­listas ou Estados em processo revolucionário.
As divergências no interior do mundo muçulmano passam,numa análise simplista, por várias linhas de divisão, a primeira das quais seráde natureza étnica – parece ser difícil conceber uma aliança duradoura entreárabes e persas, ou envolver países do Extremo Oriente nas questões concretasdo Médio Oriente.
Um tal bloco passaria pela união dos países actuais aoserviço de um ideal comum. Acontece que o sentimento nacional é forte, que cadaEstado se orienta pelos interesses nacionais seculares, é cioso da suasoberania e tem lutado contra tendências hegemó­ni­cas, mesmo quandomanifestadas para a defesa de ideal religioso.
Na associação da religião com a política, colocando estaao serviço daquela, encontramos visões muito diferentes entre xiitas e sunitas.Dentro de cada uma destas divi­sões também existem entendimentos ligeiramentediferentes sobre a vida e a relação com o divino, estratégias diferentes, determinadastambém por ou­tros factores para além do religioso.
As diferenças entre xiitas e sunitas manifestam-se emvários planos como seja o doutrinal, o teológico, o ritual, o legal e o daorganização, entre ou­tros.
Os xiitas entendem que o sucessor legítimo de Maomé foiAli, e que os mu­çul­manos necessitam de ser governados por chefes infalíveis,com um pro­fun­do conhecimento do Corão e da Suna. E só aqueles que estiverampróxi­mo do Profeta possuem este conhecimento e infalibi­li­dade, como suce­deua Ali, o companheiro predilecto de Maomé. Portanto, só os descendentes de Ali ede Fatima ( a filha do Profeta) poderão ser os chefes legítimos para dirigir aUma.
Por outro lado, os Sunitas aderem mais aos princípios doque às personalida­des, e argumentam que o Profeta Maomé deixou a questão dasucessão em aberto, deliberadamente, deixando  que a comunidade escolhesse o seu che­fe porela própria. A princípio a escolha era feita pelo consenso entre notáveis,depois passou para o consenso entre os ulamas, estudiosos das es­co­las religi­o­­sas,grupo que surgiu na época medieval. Os sunitas consideram os califas comointérpretes falíveis do Corão, da Suna e dos Hadiths.
Os xiitas sublinham que o chefe deve ser justo, e se setornar injusto deverá ser substituido. Segundo os xiitas, o Islão é a religiãoque busca a libertação dos oprimidos existentes à face da Terra, através dapiedade e do sofrimento, até que surja o Iman escondido, a chegada do Mahdi ecom ele a reabilitação da soci­e­da­de, quando as forças da injustiça foremderrotadas, o que implica um en­vol­vimento de todos os membros da Uma segundoum activismo radical..
Os sunitas olham para a História Islâmica essencialmentecomo uma deriva da Uma ideal que existiu sob a direcção dos Quatro Califas CorrecatmenteGuiados, não têm a visão escatológica dos xiitas.
Os xiitas acreditam que através do ascetismo e dosofrimento se podem re­dimir os pecados, apelando portanto ao martírio, talcomo Hussein em Kufa.
Os sunitas, com excepção das ordens sufistas comafinidade ao sunismo, são mais reservados nas suas manifestações de fé,circunscrevendo-as às ora­ções e ao cumprimento das prescrições corânicas e daSuna.
Os sunitas consideram as actividades religiosas comodomínio exclusivo do Estado Muçulmano; e quando os ulamas actuam como juizes,ou pregadores, ou professores, fazem-no sob a égide do Estado ; não existeorganização ( poder) autónoma dos ulamas, ao contrário do que defendem osxiitas.  
Em termos simples, o que tem estado em causa é aconcepção sobre a rela­ção entre religião e  política, ou entre aReligião e o Estado, se deve ou não deve existir predominância de uma sobre aoutra, ou uma separação entre “os aspectos terrenos da gestão diária da vida eos aspectos eternos relacionados com o destino do Homem “.
A inteligência de ambos este grupos tenta no entantoprojectar a ideia para o exterior do Islão de que estas diferenças não sãosubstanciais, ao ponto de criarem processos de rejeição mútua. Contudo, osprogressos verificados no terreno, porventura conduzidos com outrasfinalidades, não dão indicação des­sa convergência, como se verifica, porexemplo, no Iraque ou no Afega­nis­tão, e como se verificou em termoshistóricos quanto às tentativas falha­das da conciliação política entre as duascorrentes.
Na origem, as diferenças ideológicas estiveram associadasaos clãs ou às tri­bos, e essa associação étnica parece ter-se mantido duranteum tempo his­tó­ri­co significativo.
O revivalismo islâmico implica uma militância activatendo por objectivo a pureza do Islão. Essa militância significa acções contratodos  aqueles que se in­ter­puseremnesse caminho, que podem, logicamente, vir a ter um carác­ter violento, pelarelevância dos valores em causa e pela forte vontade de que os actores estãopossuidos.
A evidência histórica tem mostrado que , a partir de umadada fase da conso­li­da­ção dos Estados Islâmicos, fundamentalistas, aideologia religiosa é pro­gres­si­va­men­te condicionada pelas questõesseculares do posicionamento es­tra­tégico relacionado com influências einteresses nacionais, mantendo no entanto a forma de Estado Islâmico.
De facto, parce-nos que o universalismo islâmico temvindo a ser prejudi­cado, na prática, por um sentimento de Nação que se vaiconstituindo no interior das unidades po­lí­ti­cas. Um ponto impor­tante nestecontexto é a rejeição do regime monárquico ou dinás­tico, por ser contrário aosprincípios do Islão, segundo deter­mi­nadas correntes no seu seio, e éimportante porque tem distin­guido os regimes bons dos regimes maus pelosfundamentalistas xiitas..
As ten­ta­ti­vas de construção de uni­da­des mais vastasdo que a Nação não têm ti­do sucesso, quer na associação entre islamismo earabismo, quer na consti­tui­ção da Uma para além da Nação ou do Estado, geridapor um sistema su­pra­na­cional forte. A existência da Uma global, que é aceitena perspectiva teó­ri­ca, por todos, não tem associação à problemática do poderpolítico das  várias unidades políticasque a integram.
As organizações supranacionais que se têm vindo aconstituir têm tido sem­pre um carácter associativo, no respeito pela soberaniadas Nações, e uma grande parte delas tem tido uma vigência e um alcancelimitados.
A consideração anterior conduz a que os paisespredominantente islâmicos que se situam na mesma região do Mundo, se relacionementre si de acordo com os seus interesses nacionais, que não serão certamenteconvergentes, em todas as circunstâncias.
Não parece que deva ser dado por adquirido que os valoresreligiosos sejam determinantes para a constituição de um bloco único, comcarácter de per­ma­nên­cia, sendo naturalmente favoráveis para a constituiçãode alianças tem­po­rárias para lutar pelo Islão, ou por outras causas queresultem da per­cep­ção de menos reconhecimento, ou ainda por uma eventualpercepção comum de ameaça..
Conforme se referiu, existem dois tipos de forças nointerior do mundo mu­çul­ma­no : as que resultam da ideia universalista doGrande Califado e que têm como objectivo a uniformização política, a integraçãoda política com a religião como traduzido no Estado Islâmico, e as que resistemem torno dos va­lo­res nacionais, por natureza particularistas,consubstanciados na seculari­zação do Estado.
A força universalista tem o seu suporte no Estado Islâmi­coe em forças errá­ti­cas, designadamente em grupos difusos, sem sede conspícua,que actuam com o apoio discreto daquele Estado.
A força univer­sa­lis­ta tenta criar uma unidade pelainculcação da ideia de ini­migo exterior comum, que não só desafia os valoresdo Islão, pela imposição de valores estranhos, como explora, pela força, osrecursos materiais da Uma.
Em termos históricos, a luta pela universalização da Fé,ou pela resistência contra a ameaça do infiel, consoante a perspectiva, começoulogo no século VII, com a expansão a partir de Meca, até ao Sul da Europa (travada em Tours, França, em 732, por Carlos Martel) ; a segunda grande jihadeteve lugar com o Império Otomano até ao final do século XVII. Com o início daderrocada des­te Império, em particular com o enfraquecimento do Califado, criou-seum vazio ideológico e de poder, que o Wahhabismo pre­ten­­deu col­ma­tar deseguida, apelando aos fundamentos do Islão e ao de­sen­­vol­­vi­mento de umsentimento anti ocidental.
A memória de violência tem um peso importante nassociedades islâmicas, em resultado de um processo de consolidação que ainda nãoestá adquirido totalmente, como aconteceu com a generalidade das sociedadespolíticas  em todo o Mundo, no seucaminho para a estabilização.
Tendo por adquirida a diversidade de posições no planointerno, quanto à con­so­lidação da sociedade política, como a experiênciahistórica tem de­mons­tra­do, a relevância dada à ameaça externa tem pretendidoservir como instrumen­to de coesão, o que pode significar uma apetência para aprojecção exterior do conflito interno.
A percepção sobre o inimigo externo aos regimes islâmicosfundamentalistas é ditado por ra­zões de natureza geoestratégica com base numaguerra por recursos, por ra­zões históricas essencialmente ligadas às questõesda religião e da coloni­zação, e pela in­ter­pretação de compor­tamentosactuais das outras Nações co­mo de domí­nio ou de interferência.
As Cruzadas corresponderam a um confronto religioso, nosentido da preser­va­ção dos lugares sagrados para cada uma das religiões e sãohoje muitas ve­zes referidas nos países do Medio Oriente como um projecto dedominação.
A memória histórica da invasão árabe islâmica na Europano século VIII tem relevado os seus aspectos positivos e desvalorizado o seulado negativo. A ideia da Reconquista, como epopeia de libertação do infiel,não é hoje muito valorizada ao nível da opinião pública, embora por vezes sefaça uma ou outra referência de influência ou de potencial perturbação, porresultado da chamada bomba demográfica ou dos níveis de aceitação no ladoocidental da religião muçulmana.
As lutas contra Israel assumem-se como um confrontoreligioso, por ser uma incrustação ideológica num espaço reivindicado pelosmuçulmanos, na me­di­da em que servem de bandeira para uma defesa de outraamplitude, embo­ra na realidade prática correspondam a uma luta na busca doajustamento de uma Nação a um terri­tó­rio.
A centralidade no conflito contra Israel por parte doIslão corresponde à ma­ni­festa­ção de uma posição perante o Mundo não islâ­mi­co,e nessa medida cons­ti­tui um elemento de aferição no estado do relaci­o­na­mentoentre o Mun­do Islãmico do Médio Oriente e o Ocidente.
O fundamentalismo islâmico constitui, pelas razõesexpostas uma ameaça à paz, segundo a perspectiva ocidental e dos paisesislâmicos moderados. A imposição de regimes democráticos de modelo ocidental empaíses islâmi­cos, constitui igualmente uma ameaça segundo a perspectivafundamentalis­ta.
O fundamentalismo islâmico considera como provocatórioaos valores do Is­lão o avanço da mo­der­nidade nas sociedades respectivas, namedida em que significa o Mal, traduzido pelo desvio no caminho para Deus, pelacorrupção e pela atitude laxista perante a vida, incluindo a preversão decostumes e relativização de valores morais.
A desproporção de forças entre o Ocidente e osfundamentalistas islâmicos va­­lo­­ri­­zou sobremaneira o conflito assimétricopara o qual o Ocidente ainda não descobriu a arma adequada. Neste contexto, abalança do poder deverá ser ob­jec­to da fórmula de cálculo que ponderecorrectamente o factor moti­va­ção ou fanatico, a colocação do valor da vidaabaixo da realização religio­sa.
Na sua projecção para o exterior, o actor políticofundamentalista poderá colocar-se, perante a comunidade internacional, na si­tu­a­çãode a­gente provo­cador, pelo seu comportamento, como desestabili­za­dor dosistema interna­cio­nal e, conse­quen­te­men­te, produzir alterações no grau desegurança ou de confi­an­ça no interior do mesmo sistema.
Os factos históricos parecem ter demonstrado que areligião tem sido usada como instrumento para atingir e manter o poder políticopor uma das partes, e tem sido designada como alvo, na medida em que seconsidere originadora do acentuar das diferen­ças, do radicalismo, por umaoutra parte.
Em conclusão, existem condições para a clivagem potencialentre o Ocidente e o Mundo Islâmico fundamentalista, sendo obviamentenecessário, se se de­se­jar mitigar as razões que conduzem ao conflito,reconhecer as diferenças num sentido que leve à redução dos antagonismos, emespecial no caso do an­­ta­go­nismo hegemónico.
Conceber a constituição de uma ética global, universal, éuma visão idealis­ta, utópica,  que nãotem correspondência real, nem seria certamente a solu­ção do proble­ma. Hápercursos históricos que têm que ser caminhados para saber viver com asdiferenças, porque os seres humanos são diferentes, e se existem vá­riasreligiões é porque houve razões para a sua fundação e sustentação.
De um dos lados existe a percepção de que o outro ladonão tem tido a con­si­de­ra­ção e o respeito que lhe era devido, tanto emtermos actuais como his­tó­ri­cos, ao ponto de poder criar rancor. De cada umadas partes existe a percepção de que só o seu mundo de valores existe, de quesó existe justiça, equidade, respeito pela pessoa humana, tolerância, do seulado. A ultrapas­sa­gem desta situação, que já é histórica mas que se acentuanos dias de hoje, tem que resultar, necessariamente de um processo mútuo deaprendizagem. O encerramento de cada um destes mundos sobre si mesmo só podelevar à guerra, por mais declarações de boa vontade que existam.
Os factos recentes tendem a criar, com justiça ou semela, uma identidade artificial islâmica, em prejuizo da identidade nacional, eeste facto pode traduzir-se na criação, a longo prazo, de um bloco que narealidade não exis­te na actualida­de. Como vimos, existem grandes diferençasde âmbito políti­co ou estratégico, e mesmo no plano da prática e da éticareligiosas, entre os paises do Islão, a maioria dos quais mantém relaçõesamigáveis com o Ocidente, o que contraria a tendência para o confrontopotencial.
São raros os Estados do Islão que se declaram comoinimigos frontais do O­ci­den­te, sendo as posições mais radicais assumidas porgrupos apoiados por Estados, instituições públicas ou privadas, que poderão noentanto arrastar as massas e, em consequência, influenciar os próprios Estados.
As massas populares podem optar, em determinadascircunstâncias, pelo apoio a esses grupos radicais, pelo processo típico detransição militante, a partir das convicções religiosas.O movimento das massaspode desequilibrar os regimes. E este processo poderá ser mais ou menosacelerado em função das ideias sobre auto-realização ou auto-estima, e dascondições materiais do bem-estar. Se as relações de poder, no plano interno,penderem para o lado da dissidência ideologicamente motivada, naturalmente queos regimes mo­de­ra­dos, seculares e com afinidades ao Ocidente, poderão serultrapassados. Quere dizer que se poderão eventualmente acentuar essesdesequilíbrios, por força da pressão das massas conduzidas pelos líderesfundamentalistas, manifestada segundo várias formas, inclusivamente através dovoto popular.
O posicionamento do Ocidente, na sua generalidade, tem sidodeterminado, essencialmente por razões de natureza geoestratégica associados àgarantia de acesso às fontes de matérias primas. Dada a grande dependênciaenergéti­ca, é natural que assim continue. Só a seguir virá o receio daconstituição de um bloco ideológico que venha a afectar a forma de vidaocidental, a corroer os valores fundamentais que actualmente prossegue com aintenção de os substituir por outros – a diferença entre a presente situação ea situação do passado recente da confrontação entre blocos ideológicos, residena relação de poder e também no facto de se não visualizar que essa guerra, seporven­tu­ra viesse a ter lugar, pudesse ser fria, embora actualmente ela já semanifeste sob a forma de guerra de informação.
A conclusão definitiva, em nosso entender, é a de que existe um perigo de choque de civiliza­ções, latente, sobre o qual deverãorecair as atenções das elites dos dois la­dos no sentido de serem criadascondições que evitem a tendência hegemó­ni­ca por cada uma das partes sobre a outra,que facilitem a compreensão e o respeito mú­tuos, que façam baixar os níveis dehostilidade já existentes, que não se usem convicções do foro intimo de cadaser huma­no em benefício de projectos de liderança política. Naturalmente queesta aten­ção não se pode circunscrever apenas aos aspectos teóricos, ouvolunta­ris­tas, à questão reli­gio­sa, terá que ser orientada para aspectospráticos con­cre­tos, terá que jogar com todos os elementos do problema.
A ausência de uma consciência nesse sentido conduziráinevita­vel­mente à confrontação e à entrada num processo lógico donde serádifícil sair sem que seja pelo uso da força, com tanto mais violência quantomais limitada fôr a inteligência e a visão dos líderes políticos.