2011-09-10

A. Saudita, Irão

O caso da Arábia Saudita

Na Arábia Saudita a evolução das questóes religiosas epolíticas foi condi­ciona­da por factores específicos que importa descrever, emsíntese.
A família saudita teve o domínio sobre uma grande parteda península arábi­ca durante o período anterior à ocupação otomana. Já noséculo XIX foi der­ro­ta­­da pelos otomanos e expulsa para o deserto, tendo-seexilado no Kuwait. Em 1902 regressou, começando por derrotar a família Rashid,que tinha con­tribuido para a sua expulsão, e conquistou Riade, donde começou asua ex­pan­são para leste e a ocupação da região central de Najd. Pretendiaatacar a dinas­tia Hashimi que na altura detinha a região Hijaz a que pertenciaMeca e Medina.
Abdul Aziz da Casa de Saud adoptou o Wahhabismo e foi comessa bandeira que foi integrando as tribos berberes nómadas aí existentes.
O Wahhabismo era uma corrente sunita que pretendiaexpurgar do Islão to­dos os aditamen­tos que lhe foram introduzindo a partirdos três séculos da sua existência, constituindo portanto um regresso àsorigens, à pureza inicial, à adopção rígida da Sharia.
O wahhabismo é um movimento fundamentalista islâmicosunita criado por Wahhab em meados do século XVIII. Actualmente, em especial nointerior da Arábia Saudita, fala-se muito mais de movimento salafita (predecesso­res, ou companheiros do Profeta) para significar a mesma corrente.
O wahhabismo considera exclusivamente os textos sagradoscontidos no Co­rão e na Suna, tal como interpretados e praticados pelas três geraçõesdo Is­lão, aceitando apenas mais alguns comentários adicionais, em especialaque­les que foram produzidos pelo seu fundador. Quer dizer portanto que nãoexiste evolução interpretativa, qualquer que seja a força dos contextos soci­aise políticos.
A teologia wahhabista advoga assim uma posição puritana elegalista em ter­mos de Fé e de prática religiosa, e também política, dado queesta se funde com a religião. Os wahhabitas pretendem expurgar do Islão tudoaquilo que en­­ten­­dem como inovação, como superstição, como desvio, heresiaou idola­tria, e que portanto está associado com o Mal. Opõem-se ao sufismo eao Islão Xiita, que consideram como des­vios à mensagem de Alá. Não aceitam a a­do­ra­ção,o culto dos santos, das imagens.
Dentro da rigidez que caracteriza o movimento ainda temhavido lugar a  di­ver­­gên­­cias, emespecial no que diz respeito ao seguimento das escolas ou se­des de jurisprudên­cia,havendo naturalmente uma corrente que advoga o não seguimento de nenhuma delas,o que significaria uma interpretação to­tal­­men­te restritiva dos textossagrados – na prática significa a adopção da leitura do chefe religioso.
O fundador dos Irmãos Muçulmanos referiu ter sidoinfluenciado por Wahhab, e, de facto, quando foram banidos doutros lugares aArábia Saudi­ta deu-lhes asilo, houve uma identidade de pontos de vista, e umaparticipação conjunta em muitas actividades em especial no plano teológi­co ouuniversi­tário.
Os hábitos seguidos por Abdul Aziz pretendiam ser umacópia dos passos de Maomé, quando fez com que os povos se submetessem ao Islão,no âmbito do qual seriam resolvidos os seus conflitos tribais – apesar denominalmente esta região ser muçulmana, a realidade é que existira aqui umretrocesso no plano religioso e político, retornando-se à época anterior aMaomé.
Adbul Aziz tornou-se assim no Íman desta região.
A Primeira Guerra Mundial não permitiu a realização dosplanos de ataque à di­nas­tia Hashimi, que em aliança com os Ingleses serevoltou contra os oto­ma­nos.
No final da guerra, e com a renúncia ao Califado porparte de Mustafa Ke­mal Ataturk, criou-se um vazio, em termos religiosos, etambém políticos.
A Inglaterra, em compensação pelo esforço de guerracolocou dois descen­den­­tes da dinastia Hashimi nos tronos do Iraque e daTransJordânia, o que foi considerado anti-islâmico por parte de alguns chefesde outras dinastias ára­bes, entre os quais o da dinastia Saud.
Abdul Aziz foi conseguindo a conversão ao Wahhabismo dastribos que ia conquistando, e para além disso foi convertendo o próprio estilode vida pela constituição de colonatos, pela fixação à terra. A centralizaçãofoi o princí­pio básico seguido; as colónias eram administradas por um emir epor um governador, sendo o primeiro dependente do Iman, e o segundo (juiz), en­car­re­gadodos assuntos relacionados com a aplicação da Sharia, dependente do xeique, ouchefe dos ulamas, baseados em Riade. O sistema era obvia­men­te rígido ecentrado na vigilância dos crentes, para evitar desvios e punir severamenteaqueles que ainda assim infringiam as normas estabelecidas na Sharia.

O apoio dos ingleses à dinastia Hashimi começou aenfraquecer, por dificul­da­des de entendimento entre ambas as partes. Isso deumotivos a Abdul Aziz para lançar o seu ataque, contestando a legitimidade deatribuição do Califa­do.
Em 1924 Abdul montou cerco a Meca e, tendo em conta adesproporção de forças, a família Hashimi abandonou a cidade. Em 1926 AbdulAziz proclamou-se Rei de Hijaz, a par do mesmo título para outras regiões, ouseja, tornou-se Rei da quase totalidade da Peníbsula Arábica, e para obter oreconhecimento internacional procurou e conseguiu a assinatura de um Tratadocom os Ingleses, em que estes reconheciam Abdul Aziz como Rei de Hijaz, de Nadje das suas Dependências, e em que Abdul aceitava a Inglaterra como protectordos principados árabes no Golfo e em Omã, e a integridade da Transjordânia e doIraque sob mandato britânico.
Em 1932 Abdul Aziz fundou os seus dois reinos num só quedesignou por Reino da Arábia Saudita. Ao estabelecer um Estado, no sentidomoderno, a Casa de Saud utilizou o Islão para legitimar o regime, tornando-seassim no Estado independente fundamentalista islâmico mais antigo.
A monarquia hereditária assim estabelecida foi objecto dealgumas críticas, na medida em que não respeitava o processo de eleição doCalifa tradicio­nal­men­te estabelecido. A esta crítica foi respondido que oCorão era a Cons­ti­tui­ção da Arábia Saudita ( “..o Corão é a mais antiga emais eficiente cons­ti­tui­ção do Mundo” ) e que o Rei era o que mais sesubmetia entre todos os crentes aos ditames do Corão, sendo por isso legítima amonarquia no Islão. O Rei era também o Guardião dos lugares sagrados de Meca eMedi­na, o pro­tec­tor da Fé, para além de ser o Chefe de Estado, o Comandanteem Che­fe, o Chefe da Família Real e o Chefe dos líderes tribais.
No meio de uma crise económica, Adbul Aziz aceitou aproposta da Stan­dard Oil Company para uma concessão de petróleo, em 1933. Em1951 a ex­ploração petrolífera atingia já o valor de 900000 barris por dia.
Como um acto de protecção contra as tendências políticasna época, o Prín­ci­pe Faisal  publicouem 1963 um texto programático contendo dez pontos principais quanto aosaspectos constitucionais, religiosos, judiciais e econó­mi­cos, tendo prometidoa publicação posterior da Lei Básica, ou seja, da Cons­ti­tuição, enquadrada naSharia. Esta Lei Básica só viria a ser aprovada em 1993.
A hierarquia religiosa está totalmente entrosada com aautoridade secular, a todos os níveis. Localmente, a organização religiosatrabalha em conjunto com o governo do administrador de forma semelhante à que era adoptada nos colonatos,quando da fundação do Reino; existe uma polícia religiosa para garantir aspráticas religiosas, que envolvem os comporta­mentos a seguir pelos cidadãos.Ao nível nacional o Rei é apoiado nos assuntos reli­gio­sos e judiciais peloMinistro da Religião e da Justiça que é tradicional­men­te um descendente deAdbul Wahhad.
Na Arábia Saudita os ulamas gozam de maior prestígio e poderdo que em qualquer outro Estado sunita, e constituem o elemento chave para alegitima­ção do regime. Foi a hierarquia religiosa que forçou a exoneração dorei Saud em 1964 e que colocou no trono o Príncipe Faisal que governou até1975, data em que foi assassinado. A legislação necessária para a regulação dosaspectos materiais da vida ( por exemplo, o Código Comercial ) é obri­ga­to­ria­menteenquadrada nos princípios da Sharia, e esse enquadramento é òbvia­menteefectuado pelos ulamas, recorrendo-se aqui ( para os assuntos não co­ber­tospelos textos sagrados ) aos ensinamentos das escolas, em espe­ci­al da escolaHanbalita, mais flexível, que permite o raciocínio interpreta­tivo dos textossagrados de forma independente, ou seja, permite a criação ( que adopta, emcerta medida, os conceitos de inte­res­se público, ou de socie­da­de de bemestar, por exemplo, que os integra nos princípios da Sharia).
O petróleo trouxe dinheiro e pessoas estranhas, de outracivilização. Trouxe importação de tecnologia ocidental, e por isso se criaramproblemas inter­nos, derivados das tensões provocadas pelos sectores maisortodoxos, dos colonatos que Adbul Aziz tinha criado, alterando estilos de vidaanteriores. Houve também formação maciça de quadros no exterior, nas universidadesamericanas e europeias.
Estes pro­ble­mas foram sendo parcialmente superados, masa tensão não de­sa­pa­receu, apesar das garantias dadas pelo Rei de que aimportação da tecno­lo­gia não iria, em nenhuma circunstância, alterar asformas de vida e de pen­sar na Arábia Saudita – os monarcas sauditas sempreacreditaram que o sistema moral e social do Islão era superior a qualqueroutro.
Os monarcas pretendiam manter uma imagem de governantespiedosos e os ulamas procuravam argumentação para sujeitar essa imagem, apesarde alguns desvios, de notícias de corrupção, de imoralidade e de abuso de po­der.Estabelecia-se assim um equilíbrio que servia a ambas as partes.
Contudo, as tensões existiam, resultando não só da defesadum Islão puro face a uma situação que alguns consideravam desviante, mastambém do surgimento de correntes pró-Nasseristas ou nacionalistas, Baathistasou mar­xis­tas que atravessaram alguns sectores da sociedade. Estas tensõesderam origem em momentos particulares de tentativas de derrube do regime queforam sempre duramente reprimidas. As Forças Armadas e as Forças de Se­gu­ran­ça,sempre leais ao regime, foram equipadas com equipamento moder­no e mantiveramsempre um elevado grau de prontidão, o que servia como elemento de dissuasão,tanto no plano interno, como na relação com outros países da região.
A queda do regime no Irão em 1979 criou bastantespreocupações, pela in­fluên­cia que poderia eventualmente ter no país, apesarda diferença da linha religiosa.
No primeiro dia do século XV islâmico ( 20 de Novembro de1979) uma for­ça de cerca de 400 militantes dos colonatos, dirigido por umintelectual de relevo, uma figura carismática e corajosa, com experiênciamilitar, ocupou a Grande Mesquita em Meca. O seu discurso, dirigido aos seussegui­do­res golpistas, foi do seguinte teor:
“ ..é mandatório para o verdadeiro muçulmano seguir oexemplo do Profeta Maomé de revelação, de propagação e de luta militar; naspresentes circuns­tân­cias, os muçulmanos genuinos deverão derrubar os actuaisdirigentes sauditas, porque são deficientes em atributos islâmicos e reprimem apopulação, e para além do mais não há lugar no Islão para reis ou dinastias. Umdirigente muçulmano legítimo deverá governar segundo a Sharia, ser um muçulmanodevoto originário da tribo Kuraish, e deve ser escolhido pela Uma Islâmica –nenhum destes atributos se aplicam aos monarcas sauditas ......”
O Rei Khalid convocou o Conselho dos Ulamas para aresolução deste pro­ble­ma de ordem pública que atingiu uma grande dimensão,apesar do “black-out” imposto à co­mu­nicação social. O Conselho imediatamenteen­con­­trou no Corão uma justi­fi­cação para o modo de tratar com os desordei­ros,que foram consi­de­ra­dos não crentes usur­pa­dores de um lugar sagrado. Apunição foi extre­ma­mente violenta. Mas ao mesmo tempo que exercia a durarepressão, o regime dava exemplos de maior piedade, no plano religioso, e demaior abertura no plano político.
A sublevação na mesquita, apesar da repressão que se lheseguiu, produziu efeitos negativos na coesão dos povos sob o regime saudita, napenínsula arábica. A Sociedade do Chamamento, uma congregação essencialmenteconstituida por intelectuais e cientistas, mas depois alargada a outros secto­res,formada logo a seguir, e que aparentemente não era contra o regime, mas sim afavor do Islão, do seu restabelecimento, da sua pureza, e em simultâneoorientada para a modernização sem abdicarem dos valores ( “ saber mais, termais armas vindas do Ocidente, para podermos combater o Ocidente “, na opiniãode um cientista), foi considerada como subversiva e co­mo tal perseguida,obrigando a que o seu líder e mais seguidores procu­ras­­sem refúgio no Irão donde começaram a lançar campanhassucessivas diri­gidas ao povo árabe sob regime saudita.
Independentemente deste caso pontual,  que assumiu uma vertente exclusi­va­­mentepolítica, a verdade é que o regime político teve sempre, por regra, alguma difi­cul­da­deem integrar a nova vaga de cientistas formados no estrangeiro nos me­ca­nis­mosde decisão política.
Mas para além deste tipo de clivagem, a sublevação namesquita fez ainda agravar outras clivagens, em particular com a comunidadexiita, que cons­tituia uma minoria de cerca de oito por cento, e que tinha sidodiscriminada pelo regime ao longo do tempo.  A Organização Revolucio­ná­ria Islâmica daPenínsula Arábica dominada por esta comunida­de, veio à superfície, assim comotiveram lugar uma série de greves, em especial no sector petrolífero,desencadeadas pela comunidade xiita. Toda esta actividade contra o regime foiprontamente reprimida, ao mesmo tempo que se procurou uma aproxima­ção aoslíderes desta comunidade oferecendo-lhes lugares no aparelho do Estado, que noentanto declinaram por recearem ser absorvidos pelo wahha­bismo.
A tensão existe, mas o regime tem conseguido manter aordem interna e a re­la­ção com os outros paises árabes e com o seu aliadoocidental preferido, os Estados Unidos da América, ainda que esta aliança játenha sido mais forte do que é hoje.
Os monarcas sauditas consideraram-se sempre como osprotectores  dos lu­ga­res sagrados, comoos hospedeiros dos milhões de peregrinos que anual­men­te aí se dirigem acumprir um dos pilares do Islão, e nestes termos sem­pre assumiram que deveriaser seu dever apoiar as causas islâmicas em qualquer parte do Mundo, o que temacontecido desde sempre, principal­men­te através de organizações de caridade.
Esta visão universalista, por um lado, e o facto de nãoexistir uma consciên­cia de uma comunidade intermédia entre a Uma e a tribo, ouo colonato, por outro, assim como a ausência de qualquer processo delibertação, fez com que o sentimento nacionalista não tivesse expressão aonível do regime e dos povos, no passado. Mas a modernidade trouxe a necessidadede se construir um aparelho, fez com que se criasse um Estado antes daconstitui­ção da Nação.
Os apelos aos nacionalismos no mundo árabe, em particulara ideia de Nasser sobre o reconhecimento de uma Nação Árabe com vinte e doisestados, não tiveram eco na Arábia Saudita, e foram considerados co­mo umprocesso camuflado de implantação socialista, que o regime saudi­ta conside­ra­vaperverso ( o socialismo foi considerado como inimigo do Is­lão, por um Conselhode Ulamas convocado para debater a questão proposta pelo Egipto, assim como foicriada em Genebra, financiada pelo Rei Faisal, a Liga Muçulmana Mundial com opropósito de reforçar os laços de solidariedade entre a comunidade islâmicamundial e combater as ideias de nacionalismo e de outros ismos que no seuentender minavam a sociedade muçulmana ).
Contudo, o facto de se ter de facto constituído um Estadofez com que se contemplasse a definição do interesse nacional, mesmo que ele seconfun­dis­se, em certa medida, com o interesse da Casa Real.
Os resultados da guerra israelo-árabe de 1967 foraminterpretados em cer­tos sectores muçulmanos, em particular dentro da ArábiaSaudita, como uma pe­na­li­za­ção divina resultante dos desvios ao Islãopraticados pela Sí­ria, Egipto e Jordânia. Apesar disso o regime sauditadecidiu apoiar os der­ro­ta­dos, e lançar uma fátua contra Israel pela ocupaçãode Jerusalém onde se encontra o terceiro lugar sagrado do Islão. Foi a partirdaqui, sob iniciativa saudita que se criaram várias instituições como aConferência Intergovernamental Islâmica, o Banco de Desenvolvimento Islâmico, aAgência Internacional Islâmica de Notícias, o Centro de Investigação Islâ­mi­copara a Economia, o Instituto para os Assuntos das Minorias Islâmicas, todosbaseados na Arábia Saudita.
A Arábia Saudita constituiu-se como o principal dadorpara o mundo mu­çul­ma­no, mas as doações eram sujeitas a um critério altamentediscrimina­tó­rio. Os candidatos a beneficiários deveriam não ser permeáveis aomarxismo, não ter relações significativas com a União Soviética, deveriam envolver-senuma guerra santa (jiade) contra Israel e o sionismo, e, funda­men­tal­mente,deveriam aplicar a Sharia segundo os termos seguidos pela Ará­bia Saudita. Éneste contexto que se explica o apoio aos movimentos islâmicos radicais, portodo o Mundo.
Contudo, a Arábia Saudita tinha relações privilegiadascom os Estados Uni­dos, principal apoiante de Israel, o que retiravacredibilidade à sua política perante os olhos da oposição que a denunciavamcomo um exercício de hi­pocrisia. O apoio dado aos americanos quando do casodos reféns no Irão e da invasão soviética no Afeganistão, colocou o regimesaudita em dificul­da­des, o que o levou a declarar a neutralidade na guerraentre os dois blo­cos, essencialmente por razões internas e de credibilidade nomundo árabe.
Depois da revolução de 1979 o Irão começou a competir coma Arábia Saudita nos movimentos renovadores e radicais islâmicos, mas as duassedes são incompatíveis, na medida em que a Arábia Saudita é  essencial­mente sunita enquanto o Irão éxiita, e esta divergência de séculos não está ainda ultrapassada.


O caso do Irão                                                                                                          
O território do actual Irão foi objecto de váriasincursões e ocupações pelos im­pe­rios vizinhos do Leste e do Oeste, desde oséculo X até ao século XVI, e ao longo dessas mudanças de poder verificaram-sevazios ideológicos e sucessivas ocupações.
Em termos genéricos, estas alternâncias dentro do Islãodisseram respeito às correntes sunitas e xiitas; foi o caso, por exemplo daordem sufista Safavid, que numa dada altura foi sunita (desde a sua fundaçãopor volta de 1330 até ao princípio do século XVI) e que depois adoptou o xiismodos Doze, para arregimentar as tribos locais contra o Império Otomano sunita.
Assim foi declarado o Xiismo como a religião do Estado, oque significava a consolidação da jurisprudência, da teologia e da filosofiaxiita. Para a realização deste projecto foram convidados ulamas ortodoxos dosul do Iraque, da Síria e do Líbano, que ali estabeleceram a sua hierarquia, eque, para além da doutrinação passaram a desempenhar papéis de verdadeirosagentes do poder secular, tutores da Ordem e da Segurança, guias da aplicaçãoda Sharia, líderes na definição das jihades – o Império Safavid competia com oImpério Otomano, e as suas fronteiras oscilavam ao longo do tempo ( porexemplo, os Otomanos, em meados do século XVII, retiraram o controlo políticodo Iraque ao Império Safavid).
De facto, passaram a governar em representação do ÍmanEscondido, e diziam-se descendentes do sétimo Íman, Musa al Kasim, o quesignifica que estabeleceram uma linhagem para a legitimação do poder, criandoassim as bases da dinastia Safavid.
O Iman Escondido constitui um mito Xiita, baseado nofacto de antes da morte do décimo primeiro Iman ter surgido uma criança de seteanos que se decla­rou com poderes sobrenaturais,  reivindicando a sucessão, e que se teráescondido na cave de uma habitação, donde nunca mais foi vista. Este mito daocultação, que tem duas versões, uma que diz que o Iman irá voltar quan­do aHistória da Humanidade se tiver realizado, quando existir pureza, justiça eigualdade na Terra, e outra versão que diz que o Iman escondido guiapermantemente os líderes terrenos no sentido da perfeição do Mundo.
Por isso, o Xiismo do Irão se designa pelo do DécimoSegundo Iman.
Os Safavides tentaram converter as tribos vizinhas doAfeganistão, sem sucesso. Em resposta, os afegãos invadiram o Irão, queocuparam durante sete anos, forçando à retirada dos ulamas para o Iraque. Aseguir aos afegãos vieram os “afshars” que procuraram uma aproximação entre oxiismo e o sunismo, que não resultou, antes acentuou as clivagens e agravou amá convivência entre ocupantes e ocupados.
Pelos finais do século XVIII o Irão era governado pelosQajars, xiitas, embora menos fundamentalistas que os Safavides. Contudo,progressiva­men­te, a influência dos ulamas foi-se acentuando de novo, a quem oregime do Xá Ali  concedeu prerrogativasem vários âmbitos, incluindo o fiscal ( os ulamas recebiam uma percentagem dosimpostos) e o judicial ( eram os ulamas que dominavam os tribunais da Sharia, eeram eles que exerciam a jurisprudência possível) – pelos meados do século XIXo regime era baseado tendencialmente num conceito de Religião – Estado ( opoder temporal era totalmente dominado pelo poder espiritual, existia apenasuma sede de poder), apesar da pretensa autocracia do Xá –esta foi sendocorroida pro­gres­si­va­mente, com a ajuda das massas populares religiosamenteorganiza­das pelos ulamas. A questão que no plano material, dividia estas duassedes do poder era a da política do regime perante as incursões do lado europeu,em especial do Reino Unido e da Rússia, questão que teve o seu ponto mais altona concessão de exploração do tabaco a favor de empresas europeias.
É neste contexto de disputa entre os dois poderes quesurge a Revolução Constitucional, ou seja, a vontade de pôr em prática, commotivações diver­gen­tes entre sectores económicos, religiosos e políticos, umaConstitui­ção. Porque os ulamas não tinham o traquejo político necessário paraoferecer uma solução consensual, aceitaram tomar como referência, ainda que commodificações importantes, a Constituição Belga.
Esta nova Constituição, enquadrada num contexto islâmico( por exemplo, considerava o Xiismo como a religião do Estado, determinava quesó pode­ria ser detentor de cargo público quem professasse o Xiismo, que omonarca deveria promover o Xiismo, que a Sharia continuaria a ser aplicada),haveria de vigorar até à Revolução de 1979.
Durante a I Grande Guerra, e apesar de se ter declaradoneutral, o Irão foi invadido por forças inglesas, russas e turcas. No final daocupação, os ingle­ses pretenderam estabelecer um Tratado com o Irão quecolocaria este nu­ma situação de protectorado britânico. Houve uma reacçãomuito forte a esta proposta, conduzida principalmente pelos ulamas. Face a estasituação, os ingleses instigaram o Coronel dos Cossacos Reza Khan para depor ogover­no através de um golpe militar, o que foi conduzido com relativafacilidade, tendo aquele oficial ocupado o cargo de Primeiro Ministro numaprimeira fase, e assumido a regência a seguir à deposição do Rei, e numasegunda fase ter-se coroado Rei. Reza Khan adoptou o nome de Palevi e passou adesi­gnar-se por Xá Reza Palevi.
Numa fase inicial, para obter o apoio da populaçãoreligiosa e dos ulamas, que então dominavam em todos os sectores da sociedade,o Xá manifestou a intenção de seguir a Constituição, em especial no queconcerne à promoção do Xiismo, considerando como sua tarfea principal “ apreservação e protecção da dignidade do Islão”.
Numa fase subsequente, o rei procurou subordinar aReligião ao Estado, começando pela promulgação de um Código Civil que colocavaos tribunais da Sharia sob controlo estatal, depois pela limitação da aplicaçãoda Sharia, e pelo estabelecimento de outras medidas que visavam o reforço daautorida­de estatal sobre áreas que do anterior eram ex­clu­si­va­mentecontroladas pela organização religiosa, como era o caso dos direitos depropriedade sobre bens que estavam afectos `a organização religiosa, o queretirou a fonte prin­ci­pal de rendimento aos ulamas, e pela liberalizaçãosocial. Estas medidas tiveram o apoio das classe alta e média, como foidemonstrado em eleições referendárias, entretanto realizadas, embora tivessemcriado focos de tensão bastante intensos.
Em plena Segunda Guerra, por pressão das forçasbritânicas e russas, o Rei foi forçado a abdicar a favor de seu filho, entãocom 23 anos, acção que foi ce­le­bra­da pelos ulamas, obviamente.
O jovem rei, Mohammad Reza Palevi, cedeu à pressão internados ulamas e começou por revogar algumas das medidas impostas por seu pai.Apesar disso, foi objecto de uma tentativa de assassínio por um radicalislâmico, e alguns sectores religiosos desencadearam uma luta feroz, no planopolítico, para fazer retornar o Islão à sua pureza e para impedir aintensificação de contactos com os ocidentais, para expulsar o estrangeiro doseu país.
É nesta fase (1951) que é assassinado pelos Fedayin (grupo criado em 1945 para apli­­ca­ção rigorosa da Sharia e fiscalização doscostumes) um general iraniano acusa­do de ser pró-britâ­ni­co ( três anos antestinha sido assassinado um ministro acusado de agente do imperialismo britânico),e se dá a nacio­na­lização das companhias petrolíferas.
O primeiro ministro eleito, Mohammed Mossadegh, deformação ocidental era um nacionalista extremista, tendo aplicado a lei danacionalização do pe­tró­leo, já do anterior aprovada pelo Parlamento, o quedeu origem a uma reacção britânica que, com o apoio dos Estados Unidos (operação Ajax), pro­­mo­veram uma agitação interna que acabou com a demissão doPrimeiro Ministro e a reposição do Xá, entre­tanto fugido para Bagdade quandoda primeira convulsão interna.
Segundo o Ayatola Kashani, o mais radical de todos, eprincipal apoiante de Mossadegh, fundador de um partido político, activistaanti-imperialista, “ ..as doutrinas islâmicas aplicam-se à vida social, aopatriotismo, à adminis­tra­ção da justiça e à oposição às injustiças e ao des­po­tis­mo... O Islão avisa os seus aderentes para não se submeterem ao jugoestrangeiro  .... O imperialismo estátentando confundir as mentes das pesso­as ao pretender estabelecer umadistinção entre religião, governo e políti­ca”.
Depois da recuperação do poder, o Xá procurou assimpatias dos ulamas, ao declarar-se salvador do Islão e ao executar acçõespráticas que davam indi­ca­ções de uma vontade de conciliação. Contudo, asmedidas que tinham sido tomadas por seu pai continuavam em vigor, em largamedida. O seu novo Primeiro Ministro, amigo pessoal do recem empossadoPresidente Kennedy, aconselhou-o a dissolver o Parlamento e a governar pordecreto, sugestão que foi seguida e que começou a levantar oposição por partedos religiosos. De entre estes, começou a sobressair o Ayatola Komeini. O Xá,perante as tensões verificadas e a forte oposição ás medidas de modernização (reforma agrária, direito de sufrágio universal, direitos da mulher,administração da justiça, etc), decidiu-se por tomar uma posição de força e irpor diante com a separação entre a Religião e o Estado, o que contrariava osulamas. Em vez de convocar eleições para o Parlamento, decidiu-se pelaseleições locais, e para estimular o processo da modernização publicou umdocumento com seis pontos fundamentais, a que chamou Revolução Branca, quesubmeteu a referendo tendo obtido uma esmagadora maioria de votos a favor(99,9%). Para além disto, fez desencadear uma vasta acção de informação onde seafirmava que o processo em curso se enquadrava no espírito da Sharia : “ asreligiões são eternas... por esta razão a religião é uma matéria que não seconfunde com a política  .. a políticadiz respeito aos assuntos terrenos de cada dia .   a religião diz respeito ao eterno”.
A convulsão social, estimulada pelos ulamas, emparticular pelo discurso violento de Komeini, que acabou por ser preso e depoisdeportado, atingiu grandes proporções, o que levou a uma forte repressão porparte do regime.
É interessante mencionar a posição de Komeini sobre esteproblema da relação entre religião e política, à época. Na sua perspectiva,dado que o Is­lão é acima de tudo uma lei divina, ela terá que ser aplicada soba forma de Estado. Só um governo poderá cobrar as taxas islâmicas edistribui-las honestamente pelos membros necessitados da comunidade, assim comosó um governo poderá definir as prescrições islâmicas sobre os deveres doscrentes, e aplicar punições para os prevaricadors. È um necessidade lógica queassim seja. Um governo islâmico requere um governante islâmico, um juristareligioso, que saiba aplicar a Sharia e que seja absolutamente justo na suaaplicação. E só os Imans possuem estas qualificações, a de interpretar eaplicar a lei divina que governa o ser humano, na sua essencialidade, agindodeterminados pelos seus preceitos e não pela sua vontade discricionária. O Imané infalível, e porque se rege por princípios que estão acima da sua con­di­ção,não é ditador. A monarquia é portanto incompatível com a lei divina.
Nesta teoria simples, que evoca as origens do Islão, nãoexiste a mínima re­fe­rên­cia ao legado ocidental, às noções políticas eideológicas adoptadas no Ocidente, como sejam por exemplo as noções dedemocracia, nacionalismo,  socialismo, oucomunismo.
Face ás posições assumidas pelo Xá, totalmentecontraditórias com estas po­si­ções, seria de esperar confronto, que de factoaconteceu, sob a forma da re­pres­são e também sob a forma de persuasão,procurando por exemplo dividir os ulamas. Esta tensão acabou por explodir em1979, quando o movi­men­to das massas conduzido pelos revolucionários, escapouao controlo do Xá que, não tendo os apoios do exterior, nem a capacidadeinterna para prosseguir a repressão, foi forçado a abando­nar o paisprecipitadamente. Esta saída permitiu a recepção triunfal do  Iman Komeini, mentor espiritual e líder da Revolução.
A primeira medida de Komeini foi nomear um primeiroministro e incumbi-lo de alterar profundamente o regime político, no sentido dacriação de uma República Islâmica. Antes porém submeteu a questão a referendo (deverá o Irão ser uma República Islâmica ‘) e obteve uma esmagadora maioria devotos sim (participação de 89%, 98,2% de votos sim).
Desde logo se verificou um funcionamento paralelo daAdministração com o Conselho Revolucionário Islâmico, nomeado por Komeini, tendosido uma das suas principais tarefas apresentar uma Constituição. Foramrealizadas de imediato eleiçoes para uma comissão de especialistas ( comissão constitu­inte)encarregada de elaborar a Constituição, segundo os princípios definidos porKomeini, ainda antes do derrube do Xá . Não foi no entanto pacífica a obtençãodum consenso para o texto produzido pelo Comissão, sendo as divergênciasrelacionadas com a relação entre política e religião, entre cor­ren­tes maismoderadas e correntes radicais dos dois lados do espectro de opinião.Finalmente, em 3 de dezembro de 1979 foi aprovado o texto constitucional, emeleições, por 99,5 % do voto popular.
A resistência ao novo regime foi sobretudo conduzidapelos Mujahedines, grupo de origem marxista que começou por ser constituidopara lutar contra o regime do Xá, antes da Revolução, e que continuou essa lutaagora no novo regime, reivindicando o assassinato de 1200 religiosos epolíticos, em 1982. Foi fortemente reprimido pelos novos poderes instalados, eforçado a deslocar-se para o vizinho Iraque onde obteve apoio substancial,vindo a apoiar as forças iraquianas contra o Irão, na guerra que se inicioulogo em 1980 entre os dois países. No ano de 1982 foram executados 4000 dosseus membros pelo regime iraniano.
A Constituição do Irão estabelece que a religião oficialé o Islão e a escola de pensamento de Jaafari, e este princípio permaneceráeternamente imutá­vel. Devido à ocultação do Décimo Segundo Iman, o governo e aliderança da Nação estará a cargo do piedoso e justo faqui que seja corajoso,experiente e apto para a função administrativa, e que seja reconhecido e aceitepelo povo. As suas competências são amplas, desde o campo da segu­ran­ça e dadefesa, da Justiça, até à aprovação (indirecta) dos candidatos pre­si­den­ciais.
O Líder Supremo, que é o representante ou incarna oCalifa Escondido, é es­col­hi­do pela Comissão de Especialistas, de entre oscandidatos que ele pró­prio poderá escolher em vida, ou aqueles que semostrarem com as qualida­des exigidas para o cargo.
A Comissão de Sábios é composta por 86 membros virtuosose letra­dos, e­lei­­tos, depois dos candidatos terem sido aprovados peloConselho dos Guar­diões.
O Presidente da República é eleito para um mandato dequatro anos, sendo os candidatos à eleição aprovados pelo Conselho deGuardiões.
Sobre a questão da soberania, estabelece-se que “ asoberania absoluta sobre o Mundo e o Homem pertence a Deus, e é Ele que colocao Homem respon­sá­vel do seu destino social”. “ Ninguém pode privar o Homem doseu direito dado por Deus nem subordiná-lo aos interesses de outro indivíduo ougrupo”. “ Os assuntos do País deverão ser administrados com base na opi­niãopública expressa em eleições para a presidência da República, para a AssembleiaNacional Consultiva, ou por meio de referendos”.” os poderes legislativo,executivo e judicial são independentes, e a comunicação entre eles é asseguradapelo Presidente da República”.
O Conselho dos Guardiões, cujos membros são designadossegundo um pro­ces­so específico ( seis escol­hidos pelo Líder e seis peloConselho Nacional Con­sul­tivo sob proposta do Con­selho Judicial Supremo), tempor função verificar que as leis e disposi­ções estão de acordo com o Islão e aCons­tituição.
Komeini entendia que, dado que tanto a sociedade como oregime eram islâ­mi­cos, não haveria ali lugar para aqueles que se opusessem aoIslão ou que questionassem a importância do Islão na vida.
Relativamente à política externa, a Constituiçãoestabelece que o governo tem o dever de formular as suas políticas gerais tendoem vista a confluência e união de todos os povos muçulmanos, e lutará para aunidade política, eco­nómica e cultural do mundo islâmico. Considera o alcanceda independên­cia, da liberdade e do governo justo como sendo o direito detodos os povos do Mundo, e que constitui dever islâmico apoiar os movimentos deliberta­ção nacional dos povos mais carenciados do Mundo.
Por outras palavras, a revolução iraniana não deveriaficar circunscrita ao território do Irão, porque se assim fosse ficariavulnerável ( nas palavras de um alto dirigente).
Nesta perspectiva, o Irão procurou exportar a Revolução,não só em termos ideológicos, religiosos, mas também incitando os outros povosa repudia­rem a influência americana, por ser considerada perniciosa e porsemear corrup­ção, em todos os planos.
Para facilitar esta política de influência externa, foicriado um departa­mento específico no governo iraniano, designado porOrganização Mundial dos Mo­vi­men­tos de Libertação Muçulmanos, onde sefiliaram partidos ou movi­men­tos islâmicos de outros países, designadamente, oPartido do Chama­mento Islâmico ou Al Daawa, activo no Iraque e no Koweit, aFrente de Li­bertação Islâmica do Bahrain, a Organização RevolucionáriaIslâmica da Península Arábica, baseada na Arábia Saudita, o Hezbollah e o AmalIslâ­mi­co baseados no Líbano, o Exército dos Guardas Pasdaran e a Organiza­çãopa­ra a Vitória no Afeganistão.
Naturalmente que começaram a surgir tumultos, acções deterror, manifes­ta­ções, acções de propaganda contra os regimes nos países quetinham grupos associados àquela organização, que estes países consi­de­ra­ramcomo tendo origem em Teerão, não só em termos de direcção ou de influência ideo­lógica,mas também em resultado da exportação de agentes que doutri­navam e aconselhavamno plano estratégico e táctico, e também em termos de ajuda material encoberta.Em resposta, aqueles regi­mes desencadearam acções de repressão que fizeramtravar, de certa forma, este processo subversivo.
Esta expansão do ideal islâmico (que outros consideravamcomo ideal xii­ta), acompanhada com acusações explícitas de corrupção aosregimes des­­ta regi­ão, e de subserviência aos americanos, estimulada pelosaconteci­mentos de No­vembro de 1979 ( as­sal­to à Embaixada Americana em Te­erão,com cons­ti­­tui­­ção de reféns diplomatas e militares) e por alguns suces­sospontuais na guerra con­tra o Iraque, fez com que alguns países da região (Arábia Saudita, Ko­weit, Bahrain, Qatar, Emiratos Árabes Unidos e Oman)constituíssem o Conselho de Cooperação do Golfo, com o objectivo de coordenaras políti­cas de segurança interna, as aquisições de armamento e as políticaseconó­mi­cas, tendo em vista con­tra­riar os avanços  da ameaça iraniana.
A Organização da Conferência Islâmica começou por saudara Revolução Iraniana, numa das suas reuniões em Islamabad. Contudo, nas suassessões posteriores, não se manifes­tou de forma tão afirmativa relativamenteao con­fli­to Iraque/Irão, ao contrário do que o Irão disse esperar.
Esta posição da Conferência fez criar tensões no seuseio, em particular pela pressão crítica efectuada pelo Irão a partir daquelaposição de distanciação, entrando em rota de colisão permanente.
Por outro lado, a Conferência disponibilizou-se váriasvezes para interme­diar o conflito com o Iraque, apresentando propostas para umcessar fogo e um tratado de paz, que foram sempre rejeitadas pelo Irão, queenten­dia a luta como sendo em prol do Islão, na sua universalidade, e contra oregime inici­a­dor, desviante e corrupto do Iraque. Esta guerra, que custou aoIrão entre meio milhão e um milhão de baixas, só terminou com um cessar fogomedia­do pelas Nações Unidas em 1988.
Talvez por força da reacção defensiva exterior, osobjectivos da expansão não foram totalmente conseguidos, o que levou o regimeiraniano a consi­de­rar-se isolado e a aceitar alguma ligação com alguns destespaíses, com ex­cep­ção do Koweit, aliado e vizinho do Iraque.
O Koweit sentiu-se então muito ameaçado, em especialquanto à circulação dos seus petroleiros no Golfo, o que o levou a pedirprotecção ao Conselho de Se­gu­ran­ça e que te­ve como resposta, entre outrasacções de outros países, o aumento especta­cular da presença naval americana naregião ( a nervosa guer­ra de minas de 1987 e o abate dum avião comercialiraniano descolado de Teerão enquadraram-se nesta situação).
Contudo, a aproximação entre a Arábia Saudita e o Irão,que durara três anos, foi bruscamente interrompida pelos acontecimentosocorridos na pe­re­gri­nação a Meca em Julho de 1987, onde morreram centenas deperegri­nos iranianos, no choque com a polícia saudita. Ambos os países seacusa­ram mutuamente deste acontecimento, cada um responsabilizando o outropela tragédia.
Os pe­re­grinos iranianos, da ordem das várias centenasde milhar, manifes­ta­ram-se com palavras de ordem de grande carga política,transportavam cópias do discurso político inflamado do líder proferido uns diasatrás, e exibiam o retrato de Ko­mei­ni que levaram para dentro da mesquita. Estaatitude, orquestrada por Teerão, ia contra as normas definidas pelo anfi­trião,que interpretaram o acto como provocatório. A polícia saudita foi colocada emtensão, face ao desrespeito da ordem, e ao mínimo inciden­te na frente damanifestação sucedeu-se uma confrontação generalizada, com efeitos dra­má­ti­cos,em termos de vidas humanas, também por virtude da ausência de escapatóriasfísicas no local.
As autoridades iranianas consideravam-se líderes darevolução muçulmana, assumiam-se como uma sociedade islâmica modelo, pelo seuexemplo de liderança e de con­for­mi­­dade com os princípios do Is­lão, porserem indepen­den­tes, ao contra­rio do que diziam acontecer na Arábia Saudita,que era uma monarquia ( regime incompatível com a doutrina islâmica ), e em queos seus dirigentes eram corruptos, no sentido em que não cumpriam com as pres­criçõesislâmicas e mantinham relações de dependência com os Estados Uni­dos, que oIrão considerava como o grande Satã. É evidente que, para além destasdivergências, existia o facto de pertencerem a ramos diferentes, sendo o I­rãoxiita, e a Arábia Saudita sunita.
A comunidade religiosa xiita iraniana, desde osprincípios da década de 50 do século passado decidira apoiar a comunidade xiitado sul do Líbano que aqui tinha aportado muitos séculos atrás, escorraçada doscalifados fatimi­das derrotados. Como primeira ajuda decidiu enviar um ulama, aque o Xá em 1963 veio a retirar a cidadania iraniana por o considerar integradona cam­pan­ha de de­ses­ta­bi­lização conduzida pelos religiosos no Irão, ondefundou o Alto Con­sel­ho Comunal Xiita.
Em termos políticos, os libaneses eram dirigidos peloscristãos maronitas, situação que os xiitas consi­de­ra­vam injusta ( ainda que tivesseresultado de elei­ções).
A guerra civil que entretanto teve lugar apan­hou osxiitas desarmados, o que os levou a pedir a ajuda da Al Fatah, entretantoestabelecida também no sul do Líbano, vinda da Jordânia - o resultado desteapoio traduziu-se na consti­tui­cão da milícia Amal, cujo quartel general foibaseado em Baalbek,  e toda esta acçãofoi da iniciativa do ulama iraniano destacado ( foi também em Baal­bek que oHezzbolah viria a basear o seu centro de comando, e foi tam­bém aqui que osGuardas Revolucionários Iranianos se instalaram em 1982, a quando da invasãoisraelita, e foi ainda aqui  que seconstituiu a Jihade Islâmica).
Em 1983 os aquartelamentos americano e francês emBeirute, e israelita em Tiro, foram objecto de ataque suicida que produziubaixas muito significati­vas, que as autoridades respectivas consideraram comosendo concebidos e apoia­dos por Teerão, embora este país sempre tenha negado aautoria ou a relação. Contudo,  o Aya­tolaembaixador iraniano no Vaticano, pronunciou pouco depois uma decla­ra­ção ondeconstavam os seguintes excertos : “.. os po­vos do Irão, do Afeganistão, daPalestina e do Líbano têm o direito de de­fen­der a sua liberdade, a sua fé, asua honra e independência, por quaisquer meios ao seu dispor…. Esta honrosadefesa é um direito de todo o ser huma­no livre, e morrer nesta nobre causa éum martírio em aproximação a Deus”. Estas palavras foram entendidas como umincentivo para o prosseguimento das acções nesse mesmo sentido, e umajustificação da acção violenta recente.
A vitória das forças xiitas na luta contra o exércitolibanês em 1984 encora­jou os muçulmanos xiitas a estender a guerra contraIsrael, colocando co­mo objectivo prioritário expulsá-los do Líbano, para aseguir conquistar Jerusa­lém.
Na altura, o Irão também considerava que o caminho paraJerusalém passava por Bagdade, enquadrando portanto esta guerra naqueleobjectivo fundamen­tal de derrotar Israel. No sentido de consciencializar acomunidade muçul­ma­na para estes objectivos, e de incentiva´-los a tomaracções que levassem os regimes a desencadear acções em conformidade, tem vindoa ser usado  o Congresso Mundial dosLíderes Pregado­res das Sextas Feiras, fórum privile­gi­a­do para a sustenta­çãoespiritual da re­­volução iraniana.
Actualmente, continuam a existir duas linhas na políticairaniana, sendo uma de carácter reformista, que interpreta as prescriçõesislâmicas no contexto da evolução humana, social e política, e outra maisconservadora e radical que se opõe a tudo que se considere como modernidadeocidental.
Do ponto de vista formal existe democracia, embora com oscondicionamen­tos referidos, e  foi estaparticularidade que tornou simpática a revolução, para outros povos, naquelaaltura.